No palco dos titãs, Brasil será espectador até eleger um plano de riqueza e ter coesão para executá-lo

O show dos fortões

Num tempo em que gesto, coreografia e narrativa compõem o arsenal das disputas políticas, Donald Trump é menor do que quer que todos o vejam, mas os outros é que se organizam para que ele os veja num minueto de fortões que cria mais suspeitas que harmonia.

Foi o que sugeriu a cúpula dos autocratas convidados a dedo pelo presidente da China, Xi Jinping, para participar da 25ª reunião da Organização de Cooperação de Xangai, seguida de uma enorme parada militar para exaltar a expulsão dos japoneses na 2ª Guerra. Xi discursou ladeado por mais de 20 ditadores, com tropas marchando em passo de ganso e apresentação de armas de última geração – de caças furtivos e mísseis hipersônicos a canhões a laser.

Com movimentos coreografados, ele circulou e posou com Vladimir Putin, da Rússia, e Kim Jong Un, “dono” da Coreia do Norte. Mas a também estrela do show de Xi, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, com quem a China vez ou outra troca tiros na fronteira do Himalaia, teve cuidado de faltar à demonstração de força em Pequim a pretexto de fechar acordos com empresas japonesas – um dos eixos de contenção chinesa na região. Não há deslumbrados entre titãs.

O que foi montado para legitimar uma nova ordem autocrática, sem EUA, sem governantes de viés liberal, centrada em Pequim e Moscou, foi confrontada por outra cúpula, em Paris, nos mesmos dias.

Nesta, os governantes da Europa, mais Japão, Australia e Canadá, numa autodenominada “coalizão dos dispostos”, se reuniram para reforçar o apoio à Ucrânia e ampliar as sanções à Rússia. Foi contraponto à demonstração de força dos autocratas e um chamado à razão ao velho aliado EUA.

Comum às duas cúpulas foi a ausência de convites a Trump. Faria sentido em Pequim. Foi o ataque americano ao Japão na 2ª Guerra o que permitiu à China retomar a Manchúria ocupada de 1931 a 1945.

Em Paris, os líderes das democracias liberais mostraram unidade geopolítica a despeito dos EUA, mas reconhecendo que Washington é parte de uma segurança confiável, diz Fred Kempe, CEO do Atlantic Council. No palco dos titãs globais, o Brasil é espectador mirim.

Desaprender para sobreviver

Com 40 anos de política econômica que tirou o desenvolvimento do assento de motorista depois do colapso do investimento bancado a dívida externa e inflação entre os anos 1950 e 1980; a inércia de todos os governos, sem exceção, para deter a desindustrialização (enquanto crescia na Ásia); a instrumentalização dos programas sociais com fins eleitoreiros; a desorganização do Estado e a sua captura pela elite da burocracia e lobbies privados; o conflito raso, farsante até, entre os extremismos de direita e esquerda.

Tudo isso nos apequenou, e isso quando as conexões econômicas no mundo, subvertidas por Trump, condicionam as políticas domésticas.

É possível seguir assim até o ano que vem, mas depois não haverá tempo diante das sequelas das rupturas em curso: da tecnologia, em que se destaca a inteligência artificial, à divisão do mundo por esferas de influência, o sentido do hipercapitalismo dos magnatas que apoiam Trump.

Os investidores já sofrem de “recessão mental” neste novo quadro e terão de desaprender para sobreviver, segundo apóstolos do mercado como o dinamarquês Niels Kaastrup-Larsen e o francês Louis-Vincent Gave. Estamos preparados? Nem um pouco.

Enquanto o populismo pedestre de um lado e a rebeldia infantil de outro dominarem os quadrantes políticos no país, não haverá espaço para a política se levar pela inteligência, que precisa de upgrade também entre os construtores de progresso. A carência é abissal.

Risco de sermos cavalgados

Não é contra Trump que se há de lutar nem se aninhar entre Xi e o séquito de autocratas que o seguem com pé atrás – até Putin. Mas a exibição do poderio chinês empolgou Celso Amorim, assessor externo de Lula – que o representou em Pequim, onde declarou ao Globo que o Brasil “está aberto à cooperação militar com a China”.

Os vizinhos da China, que temem o seu expansionismo explicito nas águas limítrofes e velado, na vastidão da Sibéria russa, são menos cheerleaders. “A tentativa da China de se mostrar como alternativa benigna a um EUA errático e tarifário esbarra na realidade de seu próprio comportamento coercitivo”, diz Daniel Williams, analista veterano da politica asiática.

A defesa do multilateralismo por Xi Jinping, por exemplo, surgiu quando Trump rompeu com essa cria dos EUA do pós-guerra só por lhe servir agora. Antes, a China o repelia.

Sem um governo vocacionado a perseguir a autonomia política e, em especial, econômica – o que passa por ampla reforma da governança do Estado e pela remoção do estorvo fiscal -, temos poucas chances de resistir ao risco de sermos cavalgados pelos titãs globais…

Num mundo multipolar de boca e bipolar na prática, inclusive numa ótica psicológica, muita sofisticação e pouca ortodoxia são itens de fundo para avaliar as candidaturas nas eleições de 2026.

É preciso gingado com Trump

E como lidar com o “fator Trump”? Entendê-lo como é de fato e que e quem há em sua retaguarda. Parte é show business, encenação.

“Parece que perdemos Índia e Rússia para a China mais profunda e sombria”, postou em sua rede social, ilustrada com a foto de Xi, Putin e Modi juntos em Xangai. “Que tenham um longo e próspero futuro juntos!”, arrematou. De Putin, esperava endosso ao plano de oferecer paz na Ucrânia em troca do afastamento da China. De Modi, que sustasse a compra de petróleo russo (o que a Índia faz a preço super descontado para refinar e revender). Contrariado por Modi, impôs tarifa de 50% à Índia, a mesma aplicada ao Brasil.

Pouco antes, em tempo real, pediu a Xi, em sua rede Truth Social, que mandasse seus “mais calorosos cumprimentos a Vladimir Putin e Kim Jong Un, enquanto conspiram contra os Estados Unidos da América”. Depois, argumentou no Salão Oval: “Eles esperavam que eu estivesse observando — e eu estava observando”. Esse é Trump.

Não se negocia com ele, isso se faz com seus companheiros diletos (parte dos quais está no governo). Se for bom para as partes, ele anuncia como mérito dele. Com ele é preciso gingado, fazer chegar, e há canais para isso a Lula e a Tarcísio, que os futriqueiros que estão em Washington não falam pelo establishment brasileiro.

Sem atritos internacionais, que alimentam patriotadas, a campanha eleitoral pode discutir o que importa a nós nestes tempos agitados e como podemos ser vanguarda de prosperidade neste processo.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

Deixe uma resposta