Saindo do armário
A truculência da direita bolsonarista, semelhante à da esquerda antes da ascensão do lulismo, de um lado, e, de outro, a irritação do presidente Lula com as derrotas de seus projetos na Câmara têm um saldo positivo. Como ambas as correntes dependem de partidos de centro na busca pelo sucesso, os chefões da política, ainda que a contragosto, estão sendo impelidos a escolherem um lado quando já não se satisfazem em serem apenas coadjuvantes.
Isso é promissor.
A ausência de princípios programáticos dos partidos que lideram a preferência do eleitorado tem sido um problema endêmico desde 2003 quando, eleito sem maioria parlamentar, Lula vetou tratativas para trazer o MDB para o governo em troca de apenas dois ministérios.
Pouco depois, no mesmo ano, ele e expoentes do PSDB desistiram de formar uma grande coligação visando a governabilidade no Congresso e, eventualmente, mais à frente, uma aliança em nível nacional.
O modelo se inspirava nos oito anos de FHC, que se elegeu sempre em primeiro turno com o PSDB, de verniz socialdemocrata, coligado ao MDB, ainda centro-esquerda, e ao PFL, centro-direita, a maior organização partidária no país à época. A governança da coligação se baseava em diretrizes comuns e partilha do poder executivo, das mesas diretoras da Câmara e do Senado e de suas comissões.
Os governos petistas foram por outro caminho: mantiveram o poder apenas entre os seus, optando por formar maiorias congressuais com o aliciamento individual de deputados e senadores, o que quase fez de Lula presidente de um único mandato, ao eclodir o escândalo do mensalão. Nos próximos governos, o jogo se aperfeiçoou, políticos foram convencidos a formar os seus próprios partidos para usufruir sinecuras e tocar lobbies de toda espécie, vindo a degenerar-se no que desvirtuou a política: partidos com dono e escrúpulos nenhum.
Corrupção descarada, Lava Jato, impeachment de Dilma. A repulsa a tal esbórnia elegeu Bolsonaro em 2018, e a direita radical sentou raiz. O STF tirou Lula da prisão para tentar resgatar a política. A frente ampla formada a seu lado o fez vencer por muito pouco. E Lula voltou a tratar como antes os parceiros de centro, ignorando o empoderamento do Congresso e o gosto pela autonomia desse grupo de partidos. Essa é a questão que só o voto vai poder dirimir.
O mea-culpa do STF
O STF teve boa parte da culpa pela degradação partidária. No fim de 2006, os ministros da corte consideraram inconstitucional, em decisão unânime, lei aprovada em 1995 criando metas de votos em cada eleição para os partidos terem acesso aos dinheiros do fundo partidário e às facilidades parlamentares. Foi um erro de grandes proporções, como reconheceu o ministro Gilmar Mendes.
“Hoje, muitos de nós fazemos um mea-culpa, reconhecendo que esta foi uma intervenção indevida, inclusive pela multiplicação dos partidos”, disse ele em 2017. A cláusula de barreira foi retomada, e a expectativa agora é que, passada a eleição de outubro de 2026, apenas oito a 12 partidos tenham representação na Câmara.
Alguns menores correram para se federar aos maiores, como PcdoB e Verde, agregados ao PT. Outros mais serão forçados a isso.
Por razões de cálculo político, inspirado na estrutura que o PFL chegou a ter antes de definhar pela perda de quadros, PP e União Brasil uniram-se em tese, mas ainda não moram juntos pelas mesmas razões fisiológicas e oportunistas que levam tais grêmios a serem os mais votados e nunca terem uma liderança capaz de disputar com chances a presidência da República: o acesso ao governo de turno, seja qual for. Política, para esses tipos, é ‘just business’.
O fato é que há mais de um grupo querendo ocupar o vazio deixado pelo PSDB como grande rival do PT, em especial o PSD de Gilberto Kassab, dos poucos chefes de partidos a entender o cansaço de boa parte da sociedade com as disputas políticas, com os mesmos nomes de sempre e a frustração com os resultados medíocres da economia.
Alta costura X prêt-à-porter
Do bate-cabeça na política ocupa-se o noticiário mundano, apesar de não ter importância. Como também é irrelevante saber quem os partidos de centro, majoritários por larga margem na Câmara e no Senado, nos governos estaduais e nos municípios, vão apoiar para disputar contra Lula, caso consigam dobrar os quadros alugados de seus diretórios regionais. Importa é o que propõem para o país.
Se seguirem com ideias prêt-à-porter para mudar o que tende para a disrupção da administração pública e privada e dos meios de produção, será mais do mesmo. Confundir ajuste de contas fiscais com política econômica é que fez o país estagnar desde os anos 80, quando China, Coreia do Sul e outras economias asiáticas estavam muito atrás da nossa.
O progresso requer mais um plano sob medida, como se define a alta-costura, que plano “pronto para vestir”.
Não é de reforma administrativa do Estado, nos termos que se fala a modernização dos governos, o que há a fazer, mas reinventá-lo à luz das novas ferramentas, tipo IA, aprendizagem de máquina etc. E não faz mais sentido a gestão da política monetária dissociada da política fiscal. Não é errado BC e Tesouro operarem cada um no seu quadrado. Errado é faltar o que e quem coordene as partes.
Mais: entender que as economias bem-sucedidas são as que souberam combinar eletrificação, educação e a vontade de fazer. Tal como a produção de aço moldou e formou as grandes potências. Como estamos neste quesito, tendo a segunda maior produção de minério de ferro do mundo? Importando aço chinês, levando nossa siderurgia a temer pelo futuro. Como disse um economista indiano, “Wall Street [leia-se: Faria Lima] é inimiga do aço, mas o aço é amigo do progresso”.
Há algum político e partido discorrendo sobre essas coisas?
De que reformas carecemos
No fim, o que se espera da campanha eleitoral, que já começou, e por ora só com Lula na raia, é um debate de ideias, que confrontem as reformas estimulativas do consumo e distributivas com o déficit de atenção dedicado ao desenvolvimento – expressão tornada maldita pelo neoliberalismo importado dos EUA, de onde já foi escorraçado.
Um ponto de partida pode ser o reconhecimento tácido do centro de que uma coisa é apoiar projetos necessários vindos do governo com o qual não tem afinidade programática e outra, diferente, é apoiá-lo em troca de negócios esquisitos e nacos do poder. Isso é também salutar para o governante, pois o poupa de ter de negociar com um Congresso que “nunca teve o baixo nível como tem agora”, conforme suas palavras num evento na quinta-feira, no Rio de Janeiro.
O resumo é que não podemos nos dar ao luxo de perdermos outra vez a oportunidade de repensarmos o país. Essa demanda é do eleitor.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
