Precisamos falar menos de STF, centrão, e mais de IA, manufatura 4.0, como crescer 4-6% ao ano etc.

Muita conversa fiada

A política brasileira vive um paradoxo evidente. Fala-se muito de crescimento e modernização, e, entretidos por irrelevâncias, nunca estivemos tão longe dos temas que realmente determinam o futuro.

O noticiário recente – tanto em torno do presidente Lula quanto da oposição à sua reeleição em 2026 – revela a disputa de prioridades do presente, enquanto a nova economia global acelera na direção que exige visão estratégica, programa mirando 2027-30 e coordenação.

Não se trata de negar avanços. Trata-se de fazer a pergunta chave: estamos discutindo o que é crucial para colocar o Brasil no caminho da prosperidade ou estamos desperdiçando nosso tempo que poderá ser irrecuperável? Narcisismo político também explica o nosso atraso.

As manchetes anunciam medidas em tese corretas, mas insuficientes, como a ampliação da faixa de isenção do IR e o reforço de programas sociais, e outros nem isso, tipo as canetadas de ministros togados na ordem constitucional. Tais iniciativas podem influenciar o ânimo do eleitor, mas não mudam a trajetória estrutural do país.

A política parece confortável com o PIB crescendo 2% a 3% ao ano, embora o ritmo necessário para escapar da chamada “armadilha da renda média”, quando um país desacelera e fica imobilizado, exija algo mais próximo de 4% a 5% por anos a fio. Isso não nos atende.

Comemoramos o alívio de curto prazo, enquanto os países emergentes que saltaram do subdesenvolvimento para o pelotão das sociedades prósperas — como Vietnã, Índia, Indonésia e Coreia do Sul, para não falarmos da China — entregam taxas duas vezes maiores, alavancadas por tecnologia, indústria avançada e investimentos coordenados.

Aprendendo com os contrastes

O contraste internacional é instrutivo. A Coreia do Sul decidiu instalar 260 mil servidores (GPUs) Nvidia Blackwell, topo de linha dos semicondutores, para construir uma infraestrutura nacional de inteligência artificial integrada às suas cadeias produtivas.

Os EUA reconstroem seu poder industrial em torno de deep tech, mineração avançada, semicondutores de nova geração e manufatura automatizada. Índia e Sudeste Asiático tratam IA, biotecnologia e computação em nuvem como pilares de soberania.

Até a Europa, pressionada pela estagnação econômica e política, tenta reorganizar sua competitividade com um consenso industrial ativista. Todos compreendem que a disputa econômica moderna não é por setores tradicionais, mas por plataformas tecnológicas que já estão moldando o mundo dos próximos 10 a 20 anos.

Não estamos condenados ao passado. Temos energia abundante, água, minerais críticos, base digital e um mercado de consumo de massa potencial. O que falta não é matéria-prima; faltam prioridades.

Hoje investimos 17% a 18% do PIB, US$ 390 a 420 bilhões por ano, considerando o PIB de US$ 2,3 trilhões. Para mudar a estrutura produtiva, a taxa de investimento deveria estar acima de 21% do PIB, adicionando mais US$ 200 bilhões a US$ 300 bilhões anuais ao total investido, entre aportes privados, públicos e estrangeiros.

É perfeitamente possível: investidores institucionais e grandes empresas globais buscam vantagens energéticas e ambientais, além de estabilidade política, segurança jurídica e mercado volumoso. Mas não colocarão capital onde falta estratégia de curto e médio prazo.

Pacto pelo crescimento

Nada disso acontecerá se continuarmos consumindo energia política em movimentos táticos, voltados mais para vencer eleições do que para alcançar o futuro. Transferências se fazem necessárias pelo déficit social histórico devido à falta de progresso compartilhado, mas não podem ser confundidas com estratégia de desenvolvimento.

Transferência de renda minora a pobreza, sem expandir a geração de riqueza nem aumentar a produtividade. Falta anunciar com clareza: a estagnação não será superada distribuindo o que já foi construído. Será superada criando o que ainda não temos.

Por isso o país precisa moldar um grande acordo de crescimento. Um pacto que una inclusão social e avanço tecnológico; que transforme a vantagem energética em plataforma de manufatura eletroeletrônica; que integre IA aplicada à mineração, à indústria, à agricultura e à saúde; que capacite milhões de engenheiros e técnicos por ano e que coloque metas claras de capacidade computacional e produtividade.

Em suma: um pacto para o país ser destino estratégico de capitais, e não um ponto de evasão por desalento de nossos talentos.

Recuperando o tempo perdido

Há outro ponto essencial, especialmente no calendário político que se avizinha. Daqui até outubro, nada relevante deverá sair nem do governo nem do Congresso. O debate vai estar capturado por cálculos eleitorais, agendas identitárias e disputas alheias ao avanço que o país necessita. Será um longo intervalo de ociosidade política, mas que pode ser aproveitado de forma produtiva.

Este é o momento para organizar, formular, debater e consolidar um caminho para apresentar à política e às elites decisórias.

Um mapa que inclua a redução programada e sistemática da carga tributária; a eliminação de custos supérfluos que travam o empreendedorismo tal como mapeado pelo MBC no programa Custo Brasil; e, sobretudo, uma estratégia agressiva para reduzir o ônus do crédito sem artifícios e desonerar a eletricidade, tudo visando expandir o investimento.

Plano existe, falta é vontade

Nada disso exige espera. Depende de gente qualificada, coordenação e vontade de disputar a agenda nacional. O que está em jogo agora é maior do que um ciclo eleitoral. Trata-se de convergência rara.

IA, energia limpa, novos insumos, manufatura avançada, geopolítica estão reorganizando a economia mundial. Quem assumir posição para os próximos cinco anos colherá dividendos por décadas; os demais amargarão estagnação permanente.

A inspiração é a que norteou os países que escaparam da armadilha da renda média: ter foco, prioridade e um pacto que sobreviva às alternâncias de poder. Empresariado, universidades, investidores, a sociedade civil devem ser protagonistas do projeto que não nasce de Brasília, mas é apresentado a Brasília com alta convicção e pressão organizada. Se não for agora, quando será?

Dá para fazer. O Brasil pode crescer, produzir e liderar mais. Mas precisa discutir o que importa. Ainda há tempo para reaver o rumo — se tivermos coragem de elevar o debate ao patamar da disputa global e afastar os “encostos” que atazanam a política.

O país não está condenado à mediocridade; está apenas à espera de um projeto, que já existe, para se reconciliar com o seu potencial de grandeza.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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