Impressiona a inaptidão dos três poderes em articular uma agenda de progresso e redenção social

Questão de ordem

Cada vez mais recorrentes e menos surpreendentes pela repetição e pelas razões subalternas dos conflitos, as confusões da semana na Câmara tiveram as razões factuais habituais, em geral envolvendo a bancada de deputados mais à direita e os de esquerda, com o bloco de centro, incluindo os do chamado centrão, como fiel da balança.

Quando o centro político se desestrutura, como se viu nas últimas votações sobre a cassação de dois deputados, num cenário em que o governo é representado por uma bancada majoritária embora os partidos de esquerda tenham apenas 25% dos 513 parlamentares, é para prestar atenção. Sinal de contrariedade nesta sociedade pouco anônima criada para dividir o dinheiro das emendas ao orçamento e mais umas beiradas no governo em troca do apoio ao governante.

O tal centrão sai do eixo quando a discórdia eclode no bastidor, e nada tem a ver com o interesse nacional. Quem nesse pancadão da política se tocou que bairros de São Paulo, com preço do metro quadrado acima de R$ 35 mil, ficaram dois a três dias sem luz? E que a estação de chuvas prenuncia mais tempestades aterradoras e o grosso dos municípios continua sem plano de contenção?

A vida real passa longe de Brasília, onde a chefia do Carf, órgão da Fazenda que julga casos tributários de empresas, pôs o jamegão numa portaria para pagar adicional de “periculosidade” – “condição em que o empregado está exposto a riscos que geram perigo iminente de morte ou lesão corporal grave” -, aos servidores e conselheiros da repartição. Vai criticar? Pense bem, se não o fascismo volta.

Perfis de esquerda na internet movem campanhas contra a Câmara e o Senado, cujos dirigentes fingem manter “relações republicanas” com o Judiciário, representado pelo STF, e com o Executivo, pelo presidente da República. Não faltam traições nesta trinca, em que o STF ratificou a prisão de Lula decidida por um juiz de primeira instância, e passados 580 dias, o soltou baseado numa filigrana.

Agora prendeu Bolsonaro, mas alguns ministros da corte, segundo o deputado relator, não se opuseram ao projeto de lei que reduz as penas do ex-presidente e de outros golpistas. Esse vaivém é outra faceta da degradação institucional dos poderes. E o que seria um governo minoritário formar maioria por meios “não republicanos”, deformando até o senso de direita e esquerda e otras cositas más?

A política alheia ao país

Enquanto o país institucional se perde em bravatas, cassações de parlamentares, operações policiais midiáticas, embates regimentais e monólogos de autoridade, o Brasil real segue largado à margem.

A coreografia semana após semana é a mesma: escândalos produzindo fumaça, discursos inflamados em plenário, ministros togados dando entrevistas políticas e articulações ocultas ditando o andamento do dia. Nada disso cria empregos, reduz juros e melhora a vida de alguém. Serve apenas à manutenção de pequenos poderes.

O que impressiona não é a divergência — divergências são naturais numa democracia. É a inaptidão dos três poderes em articular uma agenda comum. Não há, em lugar algum, um debate consequente sobre como refazer o Estado, elevar o investimento, coordenar a política fiscal com a monetária, destravar a produtividade, enfrentar a transição demográfica e modernizar a formação dos brasileiros.

É como se nossos pilares estruturais fossem um detalhe incômodo, sempre adiado pelas urgências fabricadas do dia. Essa política que ignora o país real tornou-se um conflito sem propósito comum.

Um país que passa décadas discutindo o acessório não chegará ao essencial. Nações bem-sucedidas mostram o caminho: instituições previsíveis, políticas públicas efetivas, coerência econômica e capacidade de execução. Nas mesas do Executivo, do Congresso e do Judiciário não se encontram tais questões. Quem fará o pivô?

O país não está dividido entre direita e esquerda, mas entre quem sabe a urgência do futuro e quem está preso à poeira do presente.

O que não se discute

Há uma ironia amarga nessa história. O Brasil vive um momento em que tudo deveria estar orientado para a construção de outro ciclo de crescimento, mas quase nada do que realmente importa está sendo tratado. A geopolítica da tecnologia avança; transição energética cria vencedores e perdedores; cadeias produtivas são redesenhadas; e o país, com sua matriz energética limpa, minerais críticos e sua escala produtiva, poderia ocupar lugar estratégico.

Em vez disso, Brasília gasta energia com temas que não melhoram o futuro de ninguém. O que deveria estar na pauta nacional?

Três questões são centrais. 1ª, o Estado entregar resultados. É algo que começa com digitalização, boa governança, avaliação de políticas, e termina com um setor público funcional. 2ª, reaver a competência fiscal, visando juros menores, investimento crescente e crescimento sustentado. E 3ª, transformar a política social em mobilidade econômica, graças à educação qualificada e profissional de base tecnológica e à facilitação dos novos empreendimentos.

Nada disso é abstrato. Eles definem o crescimento, a renda, a produtividade, a coerência do país e a qualidade da democracia.

Não chegam ao debate porque não geram manchetes estridentes, não rendem “likes”, não fomentam o teatro entre os Poderes. Esse é um descompasso fatal: o mundo acelera, e Brasília desacelera.

Sabemos fazer e não fazemos

Somos dos raros países que conhece exatamente o que precisa fazer — ainda assim, insiste em não fazer. Os diagnósticos estão sobre a mesa há décadas: o Estado é caro e ineficiente, a rigidez fiscal é insustentável, a produtividade estagnou, o investimento é magro, a inflexão demográfica começou e 94 milhões de brasileiros dependem de programas sociais. Nada disso deveria surpreender.

O que falta não é diagnóstico, falta coragem institucional para priorizar o que importa. Todas as condições para um novo ciclo de crescimento estão descritas, organizadas e quantificadas para que haja Estado eficiente, gasto produtivo, investimento acima de 20% do PIB, educação integrada ao mercado, mobilidade social real.

Falta apenas o que falta sempre: direção política.

Para chegarmos a 2030 como uma nação próspera, capaz de competir no ecossistema tecnológico mundial, precisamos sair imediatamente do ciclo de conflitos inúteis. Precisamos discutir o que determina o futuro: o gasto eficiente, a capacidade de entrega do Estado, a inserção tecnológica, educação, infraestrutura etc.

Nossa tragédia não é o conflito, é o devaneio. É o desgaste com o que não cria progresso, não fortalece as instituições, não gera oportunidades e não constrói a nação. Questão de ordem, portanto: o Brasil não precisa de novos conflitos. Precisa de um novo rumo.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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