País sem ‘desenrola’
O ano termina com “as águas de março fechando o verão” pregando peça no calendário meteorológico, ao chegar em dezembro com apagão de energia e enchentes na maior cidade do país, além de ciclone no sul e ventos de fechar aeroportos. Foi, e voltará a ser, não só um evento climático extremo, ou ECE, como a sigla vai se incorporando ao vocabulário cotidiano, mas evidências da ruína do planejamento e da administração pública num país atordoado por políticas ruins.
Tragédias climáticas não são recentes, apesar da dimensão global refletidas pelos eventos da COP como a última em Belém. Se servem para alinhar as ações ambientais dos países, funcionam também para disfarçar a omissão dos governos de todos os matizes ideológicos sem projetos e voltados, prioritariamente, a se manter no poder.
Da inundação do Guaíba, deixando Porto Alegre e cidades da serra gaúcha submersas, com 185 mortes, 23 desaparecidos e perdas nunca antes vistas no estado, não se fala mais, e nem se passou um ano, tal como caiu no esquecimento a devastação na região serrana do Rio, há 14 anos, com 918 mortos e bairros destruídos.
Na próxima tromba d’água, as cenas se repetirão em alguma parte do país.
Comum a tais ECEs, servindo-me do termo da moda, não é somente a fúria da natureza, mas a incúria dos governantes. Em 1956, em 1960 e a cada década, os morros em Santos vieram abaixo, levando vidas e casas – reconstruídas lá mesmo tanto pelo descaso dos poderes públicos, quanto pela falta de opções à população que mora em áreas de risco por ser o que há para elas.
É este Brasil de muita retórica pomposa de políticos que não se reconhecem incapazes de planejar o país para uma década adiante, que seja, quando planos em países bem-sucedidos são formulados com visão de 30 a 50 anos à frente, que está em campanha eleitoral sem que se ouçam propostas sobre o que farão diferente. Promessas para seduzir o eleitor carente, no entanto, abundam em toda parte.
Não se tratou de outra coisa, por exemplo, na correria dos plenos poderes em apressar votações de remendos orçamentários para 2026 e ardis com força de lei para abreviar as sentenças dos golpistas de 2023. E as prioridades vistas a olho nu? Ora…não seja chato!
Exaustão e descaminhos
Em respeito à longa carreira dos principais políticos do país, é razoável supor que haja ao menos consciência de que exaurimos os meios que movem a economia e a sociedade desde a reforma monetária inacabada de 1994. Faltou atualizar o setor público, a convivência e status entre Executivo, Congresso e Judiciário representado pelo STF e as relações federativas. Já estavam obsoletas em 1988, o ano da promulgação da Constituição. Hoje, competem um contra o outro, usurpando competências e desviando os recursos fiscais.
O dinheiro arrecadado nas três esferas federativas é gigante, em torno de 34% do PIB (incluindo FGTS e Sistema S), R$ 4,3 trilhões. Só na área federal estima-se que um exercício sério e transparente de gestão possa reaver de R$ 320 bilhões a R$ 500 bilhões por ano, 2,5% a 3,9% do PIB, desperdiçados em baixa eficácia dos cadastros sociais, projetos executivos mal formulados e carência de controle efetivo sobre as rubricas da lei orçamentária. E isso sem calcular o potencial da economia subterrânea e da corrupção sistêmica.
Não se desconsidera que o anúncio antecipado do ministro Fernando Haddad de saída da Fazenda abra espaço para o presidente candidato à reeleição reorientar as relações desgastadas com o empresariado e organizar um programa reformista e voltado ao desenvolvimento, nomeando para o cargo alguém que mobilize o movimento de mudança.
Na oposição, há conversas com igual propósito, embora, dependendo do aspirante a candidato que se escute, percebe-se que de concreto não há quase nada, só a certeza da imperiosidade da mudança.
O risco é que mãos inábeis e o distanciamento do setor privado da formulação de um novo caminho não nos levem a lugar nenhum.
Horizonte para a política
Há algo profundamente disfuncional em um país que arrecada tanto, mobiliza tantos recursos e, ainda assim, não consegue converter o dinheiro em bem-estar, infraestrutura, educação de qualidade e capacidade de antecipação. Não temos escassez fiscal absoluta, mas escassez de propósito, coordenação e método. A política tornou-se refém do curto prazo, de emergências fabricadas e do improviso, enquanto os problemas reais exigem visão e disciplina.
A obsolescência de nosso arranjo institucional ficou escancarada. Executivo, Congresso e Judiciário deixaram de operar como poderes complementares e passaram a competir por protagonismo, orçamento e narrativa. O resultado é um sistema que gasta energia em disputas laterais, e falha em formular e executar uma estratégia nacional.
O país segue tocado como se o tempo fosse infinito, como se não houvesse transição demográfica, revolução tecnológica, rearranjo geopolítico no mundo e crise climática.
Nesse ambiente, reformas estruturais são palavrão, planejamento de longo prazo virou abstração e a ideia de projeto nacional foi substituída por slogans eleitorais. Promessas abundam e entregas rareiam. Em vez de organizar o futuro, a política gere o presente como emergência, sempre reagindo, quase nunca se antecipando.
De promessas e realidades
O que precisamos com urgência é recolocar no centro do debate o que efetivamente define o destino de uma nação: a capacidade de o Estado planejar, fazer e entregar resultados. Trata-se de gastar melhor, não só gastar mais, restaurar a credibilidade das regras, profissionalizar a administração e alinhar as políticas sociais à geração de oportunidades reais, e não à dependência crônica.
Educação básica de primeira, foco em matemática, formação técnica conectada ao mundo do trabalho, saúde como fator de produtividade, logística e energia resilientes, instituições previsíveis e um ambiente de negócios funcional não são temas ideológicos. São pré-condições civilizatórias. Países que entenderam isso prosperaram; os que adiaram ou desprezaram tais escolhas ficaram para trás.
A verdadeira “promessa de vida” não está em slogans fáceis nem em benesses casuais, mas na construção paciente do que funcione. Que prepare as cidades para eventos extremos, as crianças para o dia de amanhã, os trabalhadores para a nova economia e as instituições para agir com responsabilidade e autocontenção.
Nosso drama não é falta de diagnóstico, é a recusa em transformar o diagnóstico em prioridade. Enquanto não mudar, seguiremos presos aos improvisos, a conflitos estéreis e expectativas frustradas. E a vida, esta sim, seguirá prometida – e nunca plenamente entregue.
# Feliz 2026! Volto em janeiro.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
