Capacidade de orquestrar a ação da IA sobre a infra produtiva é a nova vantagem das nações

O maestro necessário

Se o presidente Lula teve a chance de ouvir de Narendra Modi e de Lee Jae-myung, governantes da Índia e da Coreia do Sul, os planos para a implantação da inteligência artificial, durante sua recente viagem ao país de maior crescimento entre os emergentes e ao mais tecnológico sem ter nenhum recurso natural relevante, ele voltou ainda mais convencido de que tanto a governança política quanto a economia num eventual quarto mandato terão de mudar totalmente.

Os problemas que ele enfrenta já foram em boa parte superados na Índia, uma economia que fez há vinte anos a transição do dirigismo quase soviético para o modelo ancorado pelo ativismo privado, e na Coreia, país minúsculo em tamanho, com sua metade ao norte hostil e nuclearizada, que não obstante os percalços montou uma indústria de base e de bens de consumo de alta tecnologia. Ambos têm hoje na digitalização total de suas atividades e na aplicação da IA com capacidade de decisões autônomas ou agênticas o marco do recomeço.

Estamos longe dessa compreensão na política, no setor público e, em especial, nos vários setores privados da economia. Não se terá futuro sem um salto acelerado não só da compreensão do que mudou e continuará mudando nos próximos anos como, especialmente, do que é necessário fazer. Parece claro que o cenário político desarranjado como assistimos há bom tempo não tem lugar neste novo mundo.

A discussão tem várias camadas, a maioria das quais compõe nossa trajetória até as eleições e o que virá depois. O fato a encarar é que estamos muito longe de virmos a ter um debate com um mínimo de competência, ordenamento e transparência sobre o que está em jogo.

Está evidente que o comando do Congresso exige parlamentares com um pouco mais de visão de país e cientes de suas responsabilidades para além do provincianismo da microrregião em que se elegeram. Isso implica lideranças partidárias sintonizadas com um programa de transformações que nada tem a ver com o que fazemos há 40 anos.

A Presidência da República terá de ter um upgrade de sua missão, assumindo-se como maestro de uma orquestra hoje desarmônica para tocar o que exige coesão social e protagonismo de atores privados – tal como na China, apesar da mão pesada do Partido Comunista.

O que Lula viu no giro à Ásia

O mundo ingressou num ciclo influenciado pela mudança do regime produtivo global, em que a inteligência artificial passou a ser infraestrutura econômica escalável. A nova vantagem comparativa das nações não está só na energia, no capital e na mão de obra.

Está na capacidade de orquestrar inteligência agêntica sobre as infraestruturas produtivas. Mais que um programa de crescimento, nesta concepção, precisamos de reorganização institucional para operar essa arquitetura produtiva em meio a outro arranjo fiscal.

Não se trata de aderir a um modismo tecnológico, mas reconhecer que a inteligência artificial deixou de ser ferramenta e passou a ser infraestrutura. Assim como eletricidade, logística e sistema financeiro, ela estrutura a produtividade de toda a economia.

Países que compreenderam isso não discutiram se primeiro regulam a IA para depois implantá-la. Estão implantando, enquanto ajustam governança e regras. É o que Lula pôde ver no giro à Ásia.

A Índia criou um centro nacional de computação compartilhada para startups, universidades e empresas. A Coreia decidiu multiplicar sua capacidade instalada de processamento com coordenação direta do governo e grupos privados. A China incorporou a IA ao desenho do Estado e das cadeias produtivas. Nenhum desses países esperou o consenso ideológico para agir. Simplesmente, fizeram.

Falta capacidade executiva

Nós continuamos prisioneiros do modelo institucional fragmentado, com múltiplos centros de veto e baixa coordenação estratégica. Há carência de capacidade executiva. Falta-nos foco, a compreensão de que inteligência, nesta nova etapa histórica, é capital fixo.

Quando falamos em salto produtivo, falamos em reorganizar o modo de tomada de decisões. A inteligência agêntica permite integrar bases de dados, prever gargalos, otimizar cadeias logísticas, qualificar crédito, reduzir desperdícios e elevar produtividade. E isso vale para a indústria, o agronegócio, o sistema financeiro, para a gestão pública. Não é abstração. É aplicação concreta.

Mas aplicação exige direção. Exige comando político com clareza estratégica. E Congresso capaz de compreender que não se governa mais distribuindo favores orçamentários pulverizados. E não só.

Exige empresários dispostos a investir em reorganização interna e menos dependentes de proteção, além de sistema financeiro que financie a infraestrutura digital com visão longa. A transição para a era agêntica não é apenas tecnológica. É institucional.

Países com estruturas decisórias lineares em ambiente exponencial ampliam sua vulnerabilidade relativa. O atraso não será percebido de imediato, mas sob a forma de produtividade estagnada, renda média comprimida e perda de protagonismo internacional.

O que o voto vai escolher

Não propomos uma política de IA. Propomos reorganizar o Estado e a economia para operar num regime em que a IA é infraestrutura. Isso significa integrar política industrial, política de crédito, política fiscal e educação sob um mesmo eixo estratégico.

Significa também enfrentar o tema fiscal com maturidade. A infra digital habilitadora de produtividade não é despesa corrente. É ativo horizontal. Reduz desperdícios, amplia a base tributária e melhora a qualidade do gasto. A disciplina fiscal não é obstáculo à transformação. É a condição para que ela seja sustentável.

Há ainda um ponto sensível. A queda do desemprego não revela toda a realidade. A subutilização da força de trabalho segue elevada, e milhões estão na informalidade ou operando abaixo do potencial. A inteligência agêntica aplicada a pequenas empresas pode ser o meio decisivo para ampliar renda e reduzir o assistencialismo.

Mas nada disso ocorrerá espontaneamente. Mercados não coordenam sozinhos saltos estruturais dessa magnitude. O papel do maestro é exatamente este: alinhar os incentivos, remover entraves, definir prioridades e dar ritmo à execução. Já demos mostra de capacidade de coordenação quando houve clareza de propósito. Por exemplo, o PIX nasceu com poucos técnicos e tornou-se referência global.

O problema não é incapacidade técnica. É dispersão estratégica.

Persistir no debate rasteiro, na fragmentação institucional e na visão curta será escolher a irrelevância gradual. As cadeias de valor no mundo já estão sendo redesenhadas sob a nova lógica.

Neste grande palco, o maestro não é retórico. É a liderança capaz de compreender a nova partitura e levar o país a executá-la. Sem essa compreensão pelas elites dirigentes, não haverá um futuro harmonioso. A escolha está posta. Não é entre esquerda e direita. É entre coordenação estratégica e declínio contratado. Entre Bolsa Família e família com renda para comprar a bolsa que quiser.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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