Com Lula ou com Flávio, urnas reclamam menos encostos e obstáculos e mais mão na massa
A dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno por quase dois pontos de percentagem, ampliada para o dobro no último DataFolha, surpreendeu o presidente Lula, que esperava fechar a fatura sem o risco do repeteco, ao conduzir a sua campanha como um embate entre currículos – o dele, aos 81 anos este mês, nove eleições, quatro vitórias, e o de Flávio, 45 anos, sete eleições, o sobrenome como maior ativo eleitoral e nenhum projeto relevante aprovado.
Se algo já há de positivo neste processo é que a frustração de um e o salto alto do outro os fizeram passar a falar de propósitos e intenções. Problema é que ambos são passadistas nas proposições.
O que o presidente subestimou foi a transformação na sociedade – parte devido às políticas sociais que implantou e parte pelo que o assistencialismo não contemplou, ou seja, o crescimento orgânico do investimento, gerando empregos mais qualificados que os criados nas últimas décadas, com estagnação da ascensão social.
Como Lula ouviu de um deputado jovem numa das reuniões convocadas para discutir o que deu errado e como virar a onda canalizada na direção de Bolsonaro filho, legado não garante eleição, “é preciso falar de futuro”. Ele atendeu e passou a gravar vídeos curtos tipo TikTok, quando se espera conteúdo e propostas, não nova embalagem.
O governo Lula e sua campanha se mostraram desconectados do país, apegados a versões já obsoletas de promoção social: bujão de gás de graça, isenção de IR até R$ 5 mil (numa população em boa parte vivendo na economia informal, sem nota), bolsa para alunos ficarem na escola, mais crédito para uma massa de inadimplentes.
Essa capacidade de construção existiu em seus dois primeiros governos, tão populares que se reelegeu em 2006 apesar do escândalo do mensalão que ceifou parte dos construtores do PT sem substituições com inteligência política equivalente. Lula 3 foi o PT tipo centrão, mais voltado à política miúda que à construção do desenvolvimento, como começara antes com apoio de uma equipe multidisciplinar externa tanto na formulação quanto na negociação de consenso empresarial e parlamentar.
Lula pôde, eleito em 2022, armar um governo inovador, com equipe e projetos. Optou pelo mais do mesmo, abraçou a chamada esquerda identitária, que alijou os antigos companheiros e afastou o piso da pirâmide de renda. Agora, fustigado por um candidato divisivo pelo legado de Bolsonaro pai, parece ainda confuso.
Base social quer abundância
A base social da economia quer liberdade e apoio para empreender e não necessariamente trabalhar pela CLT. Quer menos burocracia e mais incentivo para empreender sem as tranqueiras de regulações em excesso e sem o crédito punitivo. Os estudos do Data Favela e do Instituto Locomotiva ajudam a compreender essas aspirações que as estatísticas agregadas não captam.
Mas a compreensão sobre o que reclama o topo da pirâmide social também não aparece nas primeiras diretrizes da equipe que cerca, e talvez literalmente, Flávio Bolsonaro, parte egressa do governo de seu pai. O empresariado aplaude não bem por achar que basta cortar gastos públicos para que os juros desabem e o milagre aconteça.
O apoio é pela expectativa de tirar do governo uma gestão que, se começou em 2003 prometendo crescimento e riqueza para todos, hoje se tornou QG de interesses de corporações do funcionalismo, além de lobbies empresariais agregados pelo apoio alugado do centrão.
O conceito-chave precisa cobrir todas as demandas de um tempo em que o passado não é para ser repetido e o futuro no mundo, e será aqui também, precisa ser inventado. E como se fará?
Com apoio político, suporte legal, liderança transformadora firme e engajamento da sociedade, desponta a oportunidade de as instituições recuperarem o protagonismo perdido ou partilhado com outras instâncias, sobretudo nos níveis de controle. Exercido hoje a posteriori, o controle implica a criminalização da política, em paralelo à ascendência dos poderes não eleitos. Exemplo: o STF.
É essa desorganização das ideias o que faz a política se mostrar atarantada, pondo a defesa da democracia, e não o que de fato a faz ser sólida e confiável, o principal programa de certos grupos.
Governar é organizar o futuro
Um governo inovador começa pela modernização digital da gestão pública. Integrar bases de dados, eliminar exigências repetidas e aplicar IA à gestão permite agilizar entregas, antecipar problemas e monitorar despesas, obras e serviços. Com proteção de dados, auditoria e responsáveis pelas decisões, a tecnologia dá ao Estado capacidade de agir e ao cidadão, os meios de cobrar.
Essa transformação requer gestores qualificados, formuladores de projetos e muito capital de longo prazo. O time será preparado na transição, reunindo ministérios, empresas, investidores e centros de conhecimento em torno de entregas definidas. Ao presidente cabe arbitrar impasses e cobrar execução. Cada projeto terá um titular, prazo, financiamento e resultado esperado.
O Brasil não vive a crise que levou a Argentina a resgates sem fim. Tem problemas fiscais que exigem solução própria, na mesma equação da redução dos juros e da aceleração do investimento. A meta seria elevar a taxa de investimento do patamar de 16,7% do PIB para 23% a 25% em quatro anos, com estabilidade de preços.
Rever despesas e privilégios, coordenar orçamento e gestão da dívida e baratear o capital são partes da estratégia de expansão produtiva. O país precisa de um plano de desenvolvimento que vá além das expectativas dos traders do mercado de títulos.
Prosperidade com tecnologia
A economia do elétron oferece uma direção: integrar eletricidade competitiva, inteligência digital e produção. Redes, data centers, armazenamento e automação devem ser planejados com a indústria que poderão sustentar. Os minerais devem evoluir para materiais e componentes; a energia, para produtos, conhecimento e empregos.
Neste contexto, capital paciente, nacional e estrangeiro, bancará projetos com demanda, tecnologia e condições de execução.
A modernidade precisa chegar à fábrica, à confecção, ao comércio e ao campo. Redes abertas, integrando identidade, Pix e logística, permitirão aos pequenos disputar mercados maiores. Sistema S e Institutos Federais, articulados às empresas, levarão formação e IA aplicada a compras, estoques, produção e vendas. Com dívidas renegociadas e crédito viável, esses negócios poderão transformar esforço em produtividade e renda.
O governo publicará uma carteira de projetos e acompanhará o investimento realizado, a capacidade instalada e os ganhos para as famílias. Incentivos terão contrapartidas verificáveis; resultados insuficientes exigirão correção.
A democracia se fortalece quando a população participa das escolhas e reconhece avanços na própria vida. Ainda que de forma difusa, é isso o que o voto reclama: um governo capaz de organizar o futuro e fazê-lo acontecer.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
