Centrão se rearma para capturar o próximo governo, mas há sinais de que encontrará oposição
O realinhamento das bancadas dos partidos do centrão nesta semana com o fim de manter o comando da Câmara e do Senado, representado por dois parlamentares inexpressivos, é o evento determinante para o cenário político, econômico e social de 2027. Tal arranjo faz da corrida presidencial uma competição para a escolha do coadjuvante na relação de força entre os três poderes constitucionais.
A votação em ritmo acelerado da emenda à Constituição, PEC, que impõe o regime de cinco dias de trabalho com dois de folga, além da anistia das dívidas federais dos MEIs, adicionada à doação de R$ 5 mil por CNPJ, e as promessas de extensão da bolsa em dinheiro a todos os universitários e o início da gratuidade das tarifas de transporte urbano, já fizeram parte desse arranjo. Esse conjunto exige explicações sobre custos, financiamento e compatibilidade com a responsabilidade fiscal. Mas quem está se importando?
Para a imprensa, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), presidentes da Câmara e do Senado, deram demonstrações de força. Para os observadores pragmáticos, a turma do “orçamento secreto” e do dinheiro extraído da lei orçamentária para divisão no escurinho entre deputados e senadores, vulgo emenda, mostrou a Lula e a Flávio Bolsonaro quem tem a força.
O arranjo inclui a proteção aos figurões das cortes beneficiados pela dinheirama de fraudes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e pelos favores sexuais que ele patrocinava. É uma frente ampla, expressão que outrora designava coligações políticas pelo bem do país, para manter o status quo das sombras a despeito da opinião do eleitor.
Alcolumbre e Motta são figuras menores na política, derrotados, além disso, em seus estados. O pai de Motta não se elegeu senador na Paraíba. No Amapá, Alcolumbre perdeu o governo do estado e as duas vagas no Senado para seus opositores. Por que, então, estão empoderados pelos chefes dos partidos de centro-direita, entre os quais União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e a federação PSDB-Cidadania? Exatamente porque são políticos menores.
Ambos garantem que o esquema suspeito de distribuição de emendas será mantido, independentemente do presidente da República eleito, além, no caso do Senado, de blindar ministros da alcova de Vorcaro que a maioria de direita do PL e do Partido Novo quer impichar.
Regime dos arranjos soturnos
No regime do status quo de privilégios e arranjos soturnos, nada é feito por acaso. A direita dita bolsonarista, mas em parte mais ideológica que obediente cega a um líder populista sem projeto e visão nacional, sobretudo os parlamentares mais jovens, parece ser a derrotada da nova legislatura sem nem ter tomado posse.
A nova direita elegeu 131 deputados federais (121 do PL e 10 do Novo), que representam 25,5% da Câmara. E terá 31 senadores (PL, 28, 19 eleitos agora, e Novo, 3), correspondendo a 38% do Senado. A disputa pela pauta legislativa prenuncia ser acirrada.
Qual a jogada do centrão, antecipando a promessa de controle das Mesas das duas Casas nas mãos de dois políticos inexpressivos, de estados sem expressão eleitoral e econômica? A mesma que os elegeu no início do Lula 3, com votos da esquerda: manter o orçamento da União entre uns poucos caciques e lobbies de grupos dependentes do Estado, cedendo algumas migalhas ao presidente da vez.
Como o PL chega empoderado pelas suas bancadas, as maiores desde a redemocratização, com uma raposa política à sua frente, Valdemar Costa Neto, a intenção é trazê-lo ao balaio do centrão, do qual sempre foi sócio executivo, pondo canga nos eleitos mais ideológicos desse campo: Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Marcel van Hattem, Deltan Dallagnol, Nikolas Ferreira, Pavanato etc.
Tais arranjos da parte mercantilizada da política, associados aos projetos eleitoreiros aprovados este ano, tornam o ajuste fiscal a prioridade a ser discutida já agora, na tramitação da LOA, a Lei Orçamentária de 2027. Como está proposta, a LOA é peça de ficção.
Como tende a ser o ajuste
Se o ajuste para tornar factível a LOA de 2027 for pela despesa, o que parece cada vez menos provável, só se a “nova direita” se acertar com Valdemar, e seus equivalentes nos partidos do centrão se rebelarem contra as chefias do “orçamento secreto”.
Se for por aumento de impostos, essa facção provavelmente negará votos. E todos, em uníssono, vão estar contra os juros altos e o Banco Central, enquanto se projeta para o próximo semestre a maior onda de recuperações judiciais (RJ) e extrajudiciais da história.
E o presidente eleito ou reeleito? Sem apoio político, não terá lugar de fala, ainda mais com o STF ameaçado. E a imprensa? Vai reverberar a gritaria da Faria Lima. E a esquerda? Vai continuar perdendo espaço na sociedade, mesmo que Lula se reeleja, segundo brilhante ensaio “Tempos Sombrios. Bolsonarismo e a sobrevivência do PT”, do economista Leonardo Burlamaqui, da UERJ e UFRJ.
Tem o empresariado, com o agro e a sua bancada multipartidária na linha de frente. Se as partes tiverem visão, fazendo-se influir na montagem do novo governo e na pauta parlamentar, a expectativa é de moderação e progresso. Essa é uma linha bastante provável tanto com Lula quanto com Bolsonaro filho, já que a complexidade do que se apresenta supera a capacidade intelectual de ambos os grupos.
Paciência está por um fio
Mas antecipo um cenário à luz de contatos com os estrategistas de grandes fundos internacionais enviados ao Brasil nos últimos dias: o capital estrangeiro atraído pelo que importa à nova geoeconomia vai continuar chegando, possivelmente em volume muito maior que o histórico. Só que guiado pelos seus interesses, não os do país.
Nenhuma das grandes potências com olhos postos aqui (China, EUA, Rússia, Alemanha, França) conhece integralmente o país. Mas cada uma integra com eficiência a parcela necessária a seus objetivos. A nossa vulnerabilidade não decorre da onisciência alheia, mas da desarticulação do nosso próprio conhecimento.
E voltamos ao início. Em que contribuem para o desenvolvimento os movimentos do centrão visando manter laçado o parlamento? O que os aspirantes a governante mostram de compreensão e capacidade de gerir o jogo sofisticado da geoeconomia? A eleição não respondeu a essas perguntas, ao contrário: tem mostrado desprezo por qualquer concepção de governança inteligente.
Mas já é jogo jogado?
Ainda nem começou. A força do centrão no Congresso terá desta vez a oposição da direita cuja representação parlamentar se agigantou, e há também o papel dos governadores dessa mesma linha eleitos sem depender das bases eleitorais dos partidos mercenários.
A política está mudando, e, no Congresso, já mudou. Partidos sem linha programática, formados para embolsar emendas e trocar apoio ao governante da vez pelo controle da CVM ou da Caixa e Codevasf da vida, tenderão ao ostracismo. Isso vale para todos, inclusive para o próximo governante.
Com a velocidade das redes sociais, o prazo para a nova legislatura e o novo governo se mostrarem eficazes será curto, talvez seis meses, se tanto. A paciência está por um fio no mundo todo.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
