Ou muda muito ou o país amargará mais quatro anos na série B do campeonato mundial da prosperidade
Apesar do esforço hercúleo dos dois candidatos na reta final da corrida presidencial, com a ajuda dos grupos sociais mobilizados pelos seus partidos para agitar as redes e as ruas, além do forte envolvimento da imprensa, a eleição não foi sobre nenhum deles. Foi mais sobre rejeições e menos sobre os predicados de cada um.
Não se discutiu o que fazer para atender as reclamações de baixo para cima da pirâmide de renda, além de como engatar a marcha do crescimento da produção nacional, vulgo PIB, que há quase cinco décadas cresce abaixo da média mundial e se distancia dos mais bem-sucedidos emergentes, como Índia, China, Indonésia e Polônia.
As razões da cobrança por mais crescimento e melhor partilha da riqueza são substantivas. A população, entre 1980 e 2026, cresceu 76,8% ou 93 milhões de habitantes. Já a participação do PIB sobre o PIB global emagreceu de 4,3%, em 1980, para estimados 2,35% este ano, na métrica da paridade do poder de compra do FMI. Pelo PIB em dólar nominal, recuou de 2,4% para 2,10%. A verdade: o país perdeu vasto terreno na prosperidade mundial.
Os candidatos não tocaram nesta ferida e fizeram o de sempre, já que não há marquetagem capaz de adocicar realidade tão indigesta.
O presidente Lula foi pródigo em gastar com públicos específicos, mais de R$ 350 bilhões apenas este ano, incluindo desonerações de impostos. O opositor Flávio Bolsonaro replicou com promessas vagas de ser ainda mais generoso que Lula, e sem austeridade fiscal.
O incumbente se lançou pela reeleição esperando consagração, não uma disputa de propostas e visões de mundo. O rival foi escolhido pelo seu principal eleitor, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para ser o anjo vingador de sua derrota em 2022 por margem mínima, 2,1 milhões de votos, e dos que o condenaram a 27 anos de prisão por tentativa de golpe. Um queria aclamação; o outro, justiçamento.
A nenhum dos dois ocorreu que parcela expressiva do eleitorado só queria repudiar o populismo assistencialista com claros sinais de exaustão orçamentária, liderado pela elite burocrática do Estado, estudantes organizados e a gerontocracia dos grupos políticos. Uma outra parcela do eleitorado foi às urnas para manter o que seria a sua visão de progressismo fortemente estatal e assistencialista, coligado aos lobbies financistas e extrativistas da economia.
A intelligentsia escanteada
A lista de equívocos do que acabou sendo uma rinha de interesses personalistas de grupos sem programa nacional e projetos é vasta.
Reforçou a incompreensão o fato de o desafiante da hegemonia dos últimos 24 anos vê-la como expressão da esquerda do século passado, de corte social-democrata, “comunista”, conforme a simplificação grosseira de seus puxadores de voto. A esquerda, por sua vez, hostilizou os eleitores da outra frente taxando-os de extrema-direita, fascistas e outros “istas” lançados para humilhar, não para categorizar.
A verdade é que a resiliência da candidatura Bolsonaro não honra a qualidade de seu programa, tão vazio quanto a peça do PT, nem a lembrança do governo de seu pai, desastroso tanto na pandemia da Covid quanto no estressamento das relações com Congresso e STF.
A força eleitoral está na rejeição a Lula e sua base política, o que inclui os partidos mal apelidados de centrão, já que grêmios formados para alugar base parlamentar ao governante minoritário e sacar dinheiro público por meio de emendas à lei orçamentária.
Lula subestimou essa rejeição, embora tivesse sido aconselhado no fim de 2022 a fazer um governo inovador tanto quanto as forças que movem a geoeconomia no mundo – digital na administração pública e faxinando obstáculos para impulsionar o investimento privado.
Que lhe faltou? O aconselhamento dos antigos companheiros do PT, parte afastada pelos infortúnios dos escândalos que abalaram o partido, parte alheada pelo círculo que envolveu o presidente, um misto de petistas com vocação de centrão e a esquerda identitária.
O sucesso relativo do Lula 1 e 2 e de parte do governo Dilma veio da intelligentsia da esquerda escanteada, além do think tank que encabeçou a formulação de seus principais programas e projetos.
O sem caminho da polarização
Mais forte que tudo, porém, foi a propensão de Lula a entender o fomento econômico e social como obra de transferências de renda, incentivo ao endividamento das famílias e gastos tributários, nome de subsídios de tributos para setores decadentes ou alvo da enorme concorrência da China – aço, vestuários, eletrônicos, carros etc.
Tais decisões lesaram o orçamento federal, alavancaram a dívida pública para cobrir déficits fiscais, puseram a carga tributária e a taxa de juro em níveis recordes, enquanto o crescente peso das normas regulatórias foi tirando a competitividade dos negócios. É o que precisa ser enfrentado, e será de algum modo, sob pena de os conflitos saírem de controle, como se vê na Europa e nos EUA.
É de um novo ciclo de desenvolvimento que trata de maneira difusa a insatisfação em todas as faixas de renda. À falta de argumentos para justificar a ausência desse componente definidor do sucesso das nações, restou a um lado brandir o risco à democracia pelo seu opositor, que por sua vez reage aos ataques denunciando corrupção.
É um sem caminho, ainda mais com as forças reacionárias tentando se reagrupar no Congresso para enfrentar os novos ventos. Quanto tempo resta para a crise se agravar? Talvez um semestre em 2027.
4º Ciclo de Desenvolvimento
A largada de 2027 exige quatro antecedentes: sanear as dívidas de pessoas e empresas; ação organizada contra os juros impraticáveis; coordenação fiscal, monetária e da dívida pública; e articulação empresarial. Sem eles, a urgência consumirá o planejamento e a boa vontade da sociedade com o governante, o parlamento e o STF.
Depois das eras Vargas, JK e Brasil Potência, o país precisará de um 4º Ciclo de Desenvolvimento, reunindo democracia, inteligência e soberania com controle civil, conhecimento e IA, investimento facilitado e resultados medíveis e socialmente compartilhados.
O vencedor da eleição precisa organizar, ainda na transição, o núcleo responsável por preparar as decisões das primeiras horas; isso requer instalar a coordenação, nomear responsáveis e ordenar um Mapa de Capacidades, Dependências e Ativos Estratégicos.
Os balizadores para 2030 são a inflação estabilizada em torno de 4%, convergindo para a meta de 3%; Selic nominal em torno de 7%; resultado primário tendendo a superávit já na passagem para 2028; investimento evoluindo de 17% para 25% do PIB em quatro anos; e crescimento real médio ao redor de 3,5% ao ano, podendo ir além.
Planejamento estratégico democrático, tecnologicamente informado, aberto ao investimento e orientado pela soberania nacional – esse é o lema para 2027 em diante. O resto é bobajada de redes sociais.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
