Revolta dos comuns
Os EUA tiveram dois presidentes disruptivos, no sentido de que as suas visões e políticas impactaram a todos no mundo e não só aos que os elegeram: Franklin Roosevelt, que governou de 1933 a 1945, e Ronald Regan, de 1981 a 1988. Ambos fizeram governos marcantes.
Roosevelt, com o New Deal, enfrentou a Grande Depressão e lançou o governo como promotor do desenvolvimento e de políticas sociais – o chamado keynesianismo. Reagan desmontou excessos desse tempo, desregulamentando e diminuindo as funções do Estado. Começou aí a era do neoliberalismo, ou financeirização das relações econômicas.
O segundo governo de Donald Trump, que não se reelegeu em 2020 e obteve agora uma vitória contundente, que deu maioria ao Partido Republicano na Câmara e Senado, poderá fazê-lo o terceiro presidente dos EUA a desencadear mudanças profundas no mundo, se fizer o que anunciou na campanha e repetiu na saudação ao eleitor.
Trump mentiu, trapaceou, espalhou insultos em baciadas aos rivais e imigrantes, ao feminismo e às políticas identitárias, e fez isso a vida inteira, não só nesta campanha, e venceu em 2016, apesar de não ser levado a sério pelas elites devido a isso, à carreira de empresário sujo, processado por passar a perna nos credores, por ter sido apresentador de reality show, os escândalos sexuais.
A imprensa o tratou como ponto fora da curva, a então direção do GOP, apelido do Partido Republicano, o via com desprezo, liberais da academia e dos meios culturais, ou seja, a esquerda nos EUA, os ricaços de Wall Street e seus economistas porta-vozes do tal neoliberalismo, todos o viam como farsante, um estranho no ninho.
Ele é isso, um outsider em seu meio de milionários jogadores de golfe. Mas, ao renegá-lo como intérprete do sentimento popular, e até caçoar de sua presunção como tal, a elite dominante, sobretudo a dirigente dos partidos Democrata e Republicano, assim como a imprensa, confrontada pelas redes sociais, isolou-se da sociedade e perdeu o elo com os sentimentos sociais majoritários dos EUA.
Que Trump entrará na Casa Branca em 20 de janeiro é a questão.
Arma de persuasão política
O primeiro governo Trump foi caótico, os secretários e assessores divergiam do que ele pretendia. Mas ficaram diretrizes, como as tarifas para bloquear produtos e tecnologias da China e um esboço de política industrial que ele não foi competente para implantar.
O democrata Joe Biden o sucedeu e não só manteve, como ampliou o cerco à China, e com um time de executivos saídos da BlackRock – portanto, sem afrontar Wall Street – pôs de pé a maior política de incentivos à ressurreição da indústria de ponta nos EUA.
O que falhou? Nada disso chegou ao piso da sociedade. Joe Biden e Kamala Harris caíram pela cegueira social e a agenda identitária.
O importante é leva-lo a sério e não bem pelo voto de confiança do eleitor, mas porque, ao contrário do que dizem os críticos, as suas ideias têm lógica, ainda que contrárias ao que achamos certo.
Tome-se a indústria de óleo e gás, que ele sempre defendeu. Não é necessariamente um trade-off entre energias limpas e poluentes. Os EUA são o maior produtor mundial de petróleo, com 13,4 milhões de barris/dia, e gás natural, com o dobro da Rússia, segundo maior.
A produção excede o consumo doméstico, de modo que, se aumentar, o preço tenderá a afrouxar, asfixiando países dependentes de óleo e gás exportados, como Rússia, Irã, Venezuela, árabes, até mesmo Brasil – o petróleo do pré-sal tem custo maior que o dos EUA. É, assim, uma arma de persuasão política sobre o BRICS+ e a ideia de enfraquecer o dólar, e também sobre a Rússia contra a Ucrânia.
E as energias limpas? A esta altura, sendo maior produtor mundial de biocombustíveis e com a energia solar bombando no Texas – onde mora o lobby petrolífero-, não tem mais volta. Seguirá crescendo.
Tarifa convive com inflação
Outra medida disruptiva do governo Trump é o uso das tarifas. A sua aplicação arruína cadeias de produção globalizadas, boa parte assentada na Ásia, especialmente na China. É inflacionária para os EUA, onde a eleição, segundo chiste do economista chefe do banco UBS, Paul Donovan, “foi decidida nos corredores do Walmart, sobre o preço de uma barra de Snickers”. Mas quanto inflacionária?
Menos do que alertam os economistas convencionais. As tarifas são aplicadas na origem. Os custos subsequentes não estão sujeitos à tarifa (varejo, atacado, transporte etc.), diz Donovan. Portanto, uma tarifa de 20% sobre um bem de consumo acabado deve aumentar seu preço em cerca de 8% na loja. Elas, geralmente, se aplicam em bens de consumo duráveis, cujas vendas são menos frequentes.
“Os consumidores estão menos cientes do preço desses bens”, diz ele. “As percepções de inflação são formadas pela hiperconsciência do preço de compras frequentes, como alimentos e combustíveis (com menor probabilidade de serem importados). As tarifas podem acabar aumentando a inflação com menos impacto na percepção politicamente importante da inflação.” Análises sóbrias são raras entre nós.
Para quem Trump governará
Será de valia à reflexão dos governantes entender em que fonte Trump sacia a sua ideologia econômica. Um discurso em 2016 segue atual. Aliás, ainda mais. “Nossa Constituição original nem sequer tinha imposto de renda. Em vez disso, tinha tarifa, que enfatizava a tributação da produção estrangeira, não da produção nacional”, ele disse. E seguiu: “Tributamos, regulamentamos e restringimos nossos negócios até a morte. E então permitimos que países estrangeiros exportem os seus produtos para nós com isenção de impostos. Quão estúpido é isso?” E mais:
“Essa onda de globalização é consequência de uma classe dominante que venera a globalização em vez do americanismo. É uma afronta direta ao nossos pais fundadores, que queriam que os EUA fossem fortes, independentes e livres. Nossos pais fundadores entendiam o comércio muito melhor que nossos políticos atuais. Pode crer.”
“A globalização”, destacou, dirigindo-se a Wall Street, “fez a elite financeira, que doa aos políticos, ser muito, muito rica. Eu era um deles. Odeio admitir, era um deles. Mas deixou milhões de nossos trabalhadores sem nada, a não ser pobreza e dor”.
Por dizer coisas assim, Trump teve votos da classe média branca depauperada dos EUA, de latinos, mulheres, dos negros, e operários sindicalizados, invadindo velhos feudos do Partido Democrata. Tem semelhança com a transferência de votos de eleitores da periferia no Brasil, nas eleições recentes, para partidos conservadores. No fim, a voz do povo fala mais alto. Aqui ela quer ser ouvida.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
