Dois brasis em choque
Dois brasis rodaram o mundo esta semana com visões, expectativas e propósitos opostos. O presidente Lula foi a Moscou e Pequim, os adversários da ordem global liderada pelos EUA que Donald Trump começou a reescrever, enquanto a nata do empresariado e líderes do Congresso e do Judiciário participaram da grande teia de almoços, jantares, seminários, reuniões privê, da chamada Brazil Week, em Nova York. As agendas desses dois brasis não dialogam entre si.
A vibe do intenso circuito de eventos em Nova York girou em torno do cenário político em construção para fazer frente à eventual candidatura à reeleição de Lula, que, por sua vez, mostrou-se mais alinhado do que a prudência diplomática recomenda em seu périplo à Rússia de Vladimir Putin e à China de Xi Jinping.
As falas dos atores principais, em cena, deixaram evidentes dois projetos para o futuro imediato do país. Um é de confronto a Trump e seu viés unilateral, em contraponto ao multilateralismo que Lula destacou nas duas capitais. O outro, esboçado por palestrantes do setor privado e da política, com destaque para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tem a perspectiva do que desponta como uma “agenda de prosperidade”, focada em reformas da gestão pública e suas instituições, e no pragmatismo por ora com Trump.
O mundo mudou e dificilmente o status quo do neoliberalismo e do que a nova direita nos EUA chama de “fundamentalismo de mercado” do período pré-Trump voltará. Nem ele deverá recuar, tal o avanço do que fez contra a velha ordem em apenas cinco meses de mandato e não só: foi eleito por uma maioria ressentida por uma miríade de razões, com destaque para a perda de empregos e de renda, devido à migração de fábricas para outros países, sobretudo China.
Essa maioria o elegeu em 2016 por isso, negou-lhe a reeleição em 2020 pela sua falta de resultados, e voltou a prestigiá-lo, no ano passado, frustrada com a economia do democrata Joe Biden e, em especial, com a projeção da política identitária em seu governo.
Um ambiente de instabilidade, somando-se à tendência de mudanças movidas pela tecnologia e choques entre as potências globais, sugere cautela e prospecção de oportunidades, sem bater bumbo para ninguém. Neste sentido, o senso da Brazil Week foi premonitório.
Pistas do que virá adiante
Algumas pistas indicam o que poderá estar adiante à medida que se aproxima a campanha eleitoral de 2026, que Lula abriu precocemente sem estar alinhavado com os partidos de centro-direita que lhe dão governabilidade agora, como deram nos seus governos anteriores.
O realinhamento dos partidos de centro direita, associados sob a forma de federações como no caso do PP com o União Brasil, já é prenúncio da ambição de chegar a 2026 com um candidato forte para disputar a Presidência contra Lula ou quem ele indicar pelo PT.
O MDB negocia com o Republicanos, partido de Tarcísio, mas o PSD de Gilberto Kassab é o que está mais avançado, filiando quadros em todo o país depois de sair da eleição municipal com o maior número de prefeitos eleitos. O regime eleitoral indica que estes partidos vão continuar com a maioria do Congresso em 2027, o que explica o virtual controle da execução do orçamento federal, graças, também, ao agigantamento distorcido das emendas parlamentares.
Em tal configuração, um presidente sem votos no Congresso e, além disso, empenhado em impulsionar medidas em desacordo com o eleitor dos partidos de centro e de direita, que são maioria, significa ou mais esgarçamento do gasto público – e suas sequelas de aumento da carga tributária, do endividamento do Tesouro e dos juros – ou, no limite, a desorganização total da administração pública.
Opioides eleitoreiros
Estamos nesta fase, sendo o roubo sistêmico das aposentadorias e pensões geridas pelo INSS um dos sintomas mais graves. Não se põe uma área tão sensível ao escambo do apoio político, no caso o PDT e os sindicatos que vieram a reboque extraindo diretamente ou por meio de supostas entidades associativas uma fração dos benefícios.
Não adianta dizer que o roubo começou com Bolsonaro. O assalto só exponencializou a partir de 2023. E, como já era sabido, jamais a autarquia poderia ser dirigida por despreparados e sem vigilância.
Também já é intuído pelas lideranças políticas, embora muito mal percebido pelo eleitorado em geral e até pelo empresariado, que o cenário de bons resultados econômicos e no emprego não é orgânico.
É a consequência de transferências de renda, pelo lado da despesa do orçamento federal, e de desonerações, pela receita. O processo se tornou tão intenso que qualquer busca para valer de equilíbrio fiscal reduzirá o crescimento, portanto, o emprego, enquanto o que é orgânico não acontece no tamanho necessário para o país poder acompanhar as economias mais dinâmicas: o investimento em bens de produção e em infraestrutura.
Culpa de opioides eleitoreiros.
A ânsia do governante de turno de criar “marcas” de sua gestão à custa do progresso estrutural conspurca a política econômica e, a rigor, o próprio desenvolvimento, ao vazar a produtividade que tem de ser estrutural para programas que aliciem o eleitor pelo bolso.
Tarcísio, Trump e… Keynes
Foi este o pano de fundo da programação dos eventos em Nova York, com destaque para as andanças de Tarcísio, virtual candidato tanto pela direita quanto pelo centro, se Bolsonaro entender que nem ele nem seus parentes estão na fila de prioridades da política.
Segundo apuração da Bloomberg, cujos terminais de negociações de ativos financeiros ocupam as mesas dos traders e dos investidores em todo o mundo, “Tarcísio foi a figura central da Brazil Week”, e vários CEOs de empresas e executivos financeiros “o descreveram como o único político com real capacidade de vencer” Lula em 2026.
O governador, formalmente candidato à reeleição em São Paulo, fez discursos de conteúdo nacional, dando foco a reformas pró-mercado. Ainda é pouco, como disse o presidente da Câmara, Hugo Motta, para quem falta debater questões de interesse nacional. Em suma, o que está escasso é um programa inovador que atraia o eleitorado já predisposto a votar “contra tudo isso que está aí”, como se diz.
Por esta ótica, a ida de Lula a Moscou e Pequim agrada o eleitor já consolidado e pouco acrescenta a quem o sufragou em 2022, meio a contragosto, para tirar Bolsonaro. Com o agravante de o jogo de Trump só estar começando. Não deve parar nas tarifas hiperbólicas.
O regramento dos fluxos livres de capital está no ar e isso, sim, pode remodelar a economia no mundo. Pode dar tudo errado, mas pode funcionar, com o aval prestigioso do grande economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946). Estamos preparados para o novo mundo? A resposta é decisiva para nosso futuro.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
