Com anúncio em jornais dos EUA em 1987 e desabafo em 1993, Trump nunca escondeu sua visão de mundo

Tudo muito previsível

É lugar comum dizer que as pessoas se tornam mais tolerantes, até sábias, com o passar dos anos. Essa máxima de manual não se aplica a Donald Trump. O tarifaço imposto a todos os parceiros comerciais a pretexto de que os EUA estariam sendo “saqueados” e “explorados por trapaceiros” estrangeiros não veio de “uma completa loucura”, como opinou o Financial Times. Nem de imprevisibilidade de Trump.

O presidente dos EUA supostamente imprevisível abriu o que tinha na cabeça, e sem ter sido indagado, 32 anos atrás, numa entrevista em Tóquio, no Clube dos Correspondentes Estrangeiros (FCCJ). Ele fora ao Japão não como político, que ninguém cogitava interessar a um personagem com fama de playboy e muitos escândalos sexuais nas costas, então aos 47 anos (fará 79 em junho), mas como empresário.

O áudio da entrevista foi desenterrado nesta semana, mostrando um sujeito sem freio na língua, com ideias polêmicas e potencialmente agressivas ao país que o recebia. Não difere do que tentou em seu primeiro governo, de 2017 a 2020, fracassando por ter sido contido pelos seus secretários e assessores. Cercou-se, em sua volta, não bem de pessoas leais – até porque a maioria nunca despontara como militante do movimento MAGA (Faça a América Grande de Novo) -, mas submissas. De Elon Musk a Scott Bessent, secretário do Tesouro.

O Trump de 2025 é igual ao de 18 agosto de 1993, quando no almoço que ofereceu à imprensa baseada em Tóquio desandou a falar, depois de ter apresentado seus empreendimentos imobiliários e cassinos, sobre os déficits dos EUA na balança comercial com o Japão.

“Os negociadores japoneses (…) mantiveram a bola rolando, sem dar absolutamente nada, e fazendo os idiotas americanos dizerem: ‘Obrigado’.” George H. Bush era o presidente (1989-1993). Carla Hills, representante comercial dos EUA, exigiu do Japão, então a segunda maior economia do mundo, o fim do protecionismo japonês.

“Quando olho para o trabalho que Carla Hills fez”, continuou, “dizendo que precisamos entender que leva tempo… na verdade, não leva tempo nenhum. Livre comércio não leva tempo. Você não precisa ficar sentado por quatro ou oito anos sem ter livre comércio.” Até dá para supor que ele se lançou na política porque ninguém o ouvia.

“O mundo ri dos EUA”

Em seu monólogo no clube de imprensa de Tóquio, no distante 1993, Trump atacou e justificou sua indignação: “Os amigos japoneses que vi nos últimos dias – e eles são muito bons amigos – riem da estupidez do meu governo. Eles riem…todos sabem que estou certo. Eles dizem que estou certo.” Com tais opiniões, entre ressentido e amargurado, surpreendente é ser apresentado hoje como errático.

Seis anos antes desta coletiva, segundo o jornalista japonês que a resgatou, Eiichiro Tokumoto, Trump havia publicado, em setembro de 1987, carta aberta em vários jornais dos EUA, entre os quais New York Times e Washington Post, em que criticava duramente Japão e outros aliados por se aproveitarem dos EUA ao longo de décadas. À época, o governo de Bush fora à guerra contra o Iraque de Sadam Hussein, que invadira o Kuwait (o que repetiu em 2003 e caiu).

Trump escreveu no anúncio: “A saga continua inabalável enquanto defendemos o Golfo Pérsico, uma área de importância marginal para os EUA em termos de fornecimento de petróleo, mas da qual o Japão e outros países dependem quase totalmente. Por que essas nações não pagam aos EUA pelas vidas humanas e os bilhões de dólares que estamos perdendo para proteger seus interesses?”. E prosseguiu:

“O mundo está rindo dos políticos americanos enquanto protegemos navios que não possuímos, transportando petróleo que não precisamos, destinado a aliados que não nos ajudarão.”

Troque Kuwait por Ucrânia e Japão e outros aliados asiáticos por Europa e se constata que é exatamente igual ao que Trump diz hoje – especialmente sua demanda de que os EUA precisam ser pagos pela proteção militar aos países da OTAN em relação à Rússia.

Lealdade, amizade e negócios

Dessa perspectiva, diz Eiichiro Tokumoto, deduz-se que a visão de mundo de Trump foi criada no final da década de 1980 ou início dos anos 1990, e sua linguagem hoje não mudou significativamente. “Em outras palavras, ele ainda vive no mundo de 1993”, diz Tokumoto.

O nexo dessa visão parece estar nas dificuldades empresariais de Trump. A década de 1980 coincide com a expansão de seus negócios e o início de uma série de frustrações, como o brutal prejuízo com a Trump Shuttle, empresa aérea apanhada pela turbulência da primeira Guerra do Golfo. “Ninguém sabe o preço real desta guerra. Ninguém sabe. E não fomos devidamente compensados por isso. Fomos tolos.”

A entrevista em Tóquio deu outra pista importante para Trump ser entendido: lealdade. Ele falou, diz Tokumoto, sobre os problemas de seus negócios na década de 1990 e os comparou a uma guerra.

“Você aprende coisas quando passa por uma guerra. Você descobre quem é leal; você descobre quem não é leal. Você descobre quem são seus amigos, e a verdade é que não dá para saber. Eu queria poder dizer que todo mundo com cabelo loiro ou cabelo preto, pele escura ou pele clara era leal. Mas não funciona assim. Pessoas em quem eu apostaria tudo – desculpem o termo – me ferraram.”

O apreço de Trump por figuras como Vladimir Putin parece guardar relação com apoios quando precisou. Tipo Hutchison, de Hong Kong, que aceitou vender dois portos no Canal do Panamá a um consórcio liderado pela BlackRock, conforme diretriz de Trump, mas ao custo de contrariar a China de Xi Jinping. Amizade para Trump é negócio.

Multilateralismo ameaçado

A entrevista de Trump em Tóquio há 32 anos repercutiu esta semana na China, na Índia, no Vietnã, além do Japão, e talvez explique a razão de o governo chinês ter destacado o vice-premiê He Lifeng, considerado o principal conselheiro de Xi Jinping, a se reunir com Scott Bessent, em Genebra. As negociações vão de sábado a segunda com tema único: as tarifas, visando reabrir o comércio bilateral.

Inglaterra foi o primeiro a fazer acordo, Índia, Japão e Vietnã podem ser os próximos. A todos será cobrada tarifa mínima de 10%. A negociação com China começa com essa premissa. Se ela avançar, cairão por terra conceitos caros ao status quo do comércio global.

O multilateralismo, tese de proa do governo Lula, que ainda agora o defendeu em encontro com Putin em Moscou, será enfraquecido, tal como o sistema monetário à margem do dólar, outro pilar do chamado Sul Global e dos BRICS+. Tudo está se passando em tempo real.

O caos dos mercados para Trump é método. Ele encerrou a conversa com a imprensa em 1993 indagando com sarcasmo: “Quem se importa se sou politicamente correto?” Alegou que não concorria a um cargo público. Pois é… A ordem global pré-Trump parece irresgatável.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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