O país sequestrado
Do muito que já se disse sobre a sangrenta operação da polícia do Rio contra traficantes do Comando Vermelho, e mais se dirá sobre a disseminação do crime organizado por todo o país até as eleições em outubro de 2026, pouco ou nada se falou das razões profundas da crescente ocupação de territórios pela marginalidade e a inaptidão dos governantes para se sobrepor aos inimigos da ordem em geral.
O debate público, sobretudo o mediado pela retórica política e pela imprensa, tende a se concentrar na superfície dos eventos (o confronto armado, o número de mortos, a reação oficial etc.), mas raramente enfrenta as causas estruturais do problema.
O Brasil enfrenta uma crise de soberania interna. Em muitas áreas urbanas, a autoridade do Estado é ficção; quem dita regras, cobra taxas de “proteção”, intermedia a distribuição de bens e serviços e implanta uma “justiça” sumária é o poder paralelo.
Não se trata de fenômeno recente nem restrito ao Rio. É resultado acumulado de décadas de improviso, de descontinuidade, a ausência de um projeto nacional maior. É a falência do planejamento que vem desde o fim do ciclo desenvolvimentista do século passado.
Sucessivos governos das últimas quatro décadas não acompanharam o ritmo da urbanização nem o crescimento desordenado das grandes e médias cidades. Enquanto milhões migravam para as periferias sem saneamento, escolas ou empregos formais, o Estado se encolhia ou chegava atrasado, quando chegava. O espaço público foi tomado aos poucos por quem tinha poder — o crime, as milícias, as igrejas, as ONGs, todos tentando preencher o vazio institucional.
As respostas foram tíbias, em geral com foco eleitoral e não para efetivamente atender as demandas daquela parcela cada vez maior e mais necessitada da população, com a política social substituindo a política de desenvolvimento. Em vez de gerar oportunidades, os governantes preferiram distribuir auxílios, formando uma rede de dependência que alivia a pobreza, mas não emancipa o cidadão.
Não surpreende que a cada evento traumático, das enchentes no Rio Grande Sul ao estouro de barragens em Minas e chacinas tanto pela polícia quanto pelo crime, estas em muito maior frequência apesar da omissão do noticiário, assistimos governantes apalermados mais preocupados em achar desculpas que em resolver.
Campo fértil da informalidade
Nossa fragilidade estrutural avança também no terreno econômico e social: segundo levantamentos da FGV e do ETCO (Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial), a economia informal — entre atividades lícitas e ilícitas — representa de 18% a 35% do PIB, conforme a fonte e método de cálculo além da oneração formal, calculada pela Receita Federal em 32% do PIB.
Significa que até um terço da riqueza nacional ocorre à margem de controle fiscal e da regulação — um campo fértil para os “poderes” paralelos assumirem funções que o Estado abandonou. Considerando a estimativa mais baixa, seriam R$ 2,3 trilhões na informalidade.
Paralelamente, o Bolsa Família e outros equivalentes atendem hoje mais de 54 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população (e vai a 94 milhões numa conta mais generosa), com benefícios mensais de R$ 600 a R$ 1 mil, conforme o número de dependentes. Estudo da FGV indica que três em cada dez atendidos por tais programas têm emprego formal — contra dois terços entre os não beneficiados.
Esse quadro consolida uma dependência dupla: cidadãos sustentados por programas assistenciais, de um lado, e, de outro, uma massa de trabalhadores à margem da economia formal, muitas vezes cooptada por redes ilegais de sobrevivência.
Sem vez para painhos e gurus
O resultado é o país duplamente capturado — pelas quadrilhas que controlam territórios e pelas elites políticas que administram a escassez e o medo em vez de enfrentá-los. A repressão policial, isolada, serve de espetáculo, mas não de solução. Nenhum Estado recupera legitimidade apenas pela força. O faz com projeto e uma larga coesão social e política sem ideologias nem pais da pátria.
Para romper o círculo vicioso e retomar o desenvolvimento — como fizeram várias economias asiáticas desde os anos 1980 —, é preciso uma reforma profunda e inteligente da gestão pública. Um passo honesto já seria um programa nacional de avaliação sistemática de todos os gastos e políticas, com eliminação das sobreposições, dos desperdícios, das funções redundantes, dos privilégios etc.
A digitalização integral dos processos, com a interoperabilidade entre órgãos federais e federativos e rastreabilidade de recursos, reduziria custos administrativos e a corrupção, que nunca minora na ausência de transparência, além de elevar a produtividade.
É igualmente necessário uma redução gradual da carga tributária, hoje em torno de 32% do PIB, sem comprometer o equilíbrio fiscal e condicionada aos resultados da modernização da governança pública. Para dar contexto: nossa oneração impositiva se equipara à média da OCDE, de 33,9% do PIB, e supera a da China, economia mais bem-sucedida do século, que é da ordem de 20% do PIB.
O que está no rastro de sangue
O país tem enorme potencial para crescer de modo consistente se agregar valor à produção agrícola e mineral, ampliar sem medo de ser feliz a base industrial e expandir a geração elétrica voltada à nova economia tecnológica.
Nossas condições materiais e humanas estão dadas. Falta é um Estado capaz de agir com visão estratégica e compromisso com o futuro, função de governantes qualificados.
Enquanto não trocarmos o modelo que apenas distribui o pouco que é produzido, sem medir retorno social nem econômico, baseado na lógica eleitoreira, vamos seguir presos à armadilha da dependência e da violência. Já a opção pela eficiência, pela transparência e o planejamento de longo prazo têm todas as condições de transformar nossas riquezas naturais e humanas numa potência do século XXI.
Não se chegará a isso apenas com mais leis nem mais impostos – as respostas no piloto automático dos aturdidos pela realidade de um país mal gerido não há anos nem há décadas, mas há pelo menos duas gerações.
O país precisa de gestores públicos. De mais gente que constrói e faz acontecer. De quem não busque a popularidade fácil, temendo a incompreensão das decisões amargas embora necessárias.
Tais coisas passam pela mediação da política, o que implica que haja partidos com programas prontos para pôr em prática e não para apenas eleger bancadas federais que liberam os dinheiros de fundos e o acesso às emendas ao orçamento público. É a falta disso tudo o que está no rastro de sangue das comunidades e periferias do país.
PS, especialmente para o Rio: tentem trazer de volta os mentores dos poucos programas que deram resultados, como o das UPPs. É com a sociedade e gente abnegada que se resolvem os grandes problemas.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
