Nova ordem tecnológica e industrial é a rota já aberta para fazer frente à emergência climática

A COP é passado

A transição energética e a transformação industrial deixaram de ser partes da agenda apenas ambiental, pondo em causa o modelo das conferências do clima, como a atual COP em Belém. Desde a COP de Paris, multiplicam-se metas, protocolos, fundos verdes, sem resultados significativos, enquanto vem mudando o eixo do centro de gravidade da geração de energia.

A transição desencadeou um movimento industrial e tecnológico de escala civilizacional, que reorganiza cadeias produtivas, padrões de investimento e relações geopolíticas. O resultado atende ao que se aspira de menos emissões de carbono, mas por razões econômicas e tecnológicas, não devido a metas e compensações de países ricos.

Nos últimos anos, a eletricidade saltou de mero insumo para ser o próprio sistema nervoso da nova economia. O vetor de mudança não é o carbono, mas o elétron, condutor de energia (eletricidade) e de informação (os dados digitais). É o elo entre a economia digital e a produção de eletricidade sobretudo por usinas solar e eólica.

Fontes renováveis, semicondutores, redes inteligentes, baterias e inteligência artificial convergem num mesmo campo tecnológico — o da Electrotech Revolution, ou Revolução Tecnológica do Elétron, como a definiu em relatório recente o think tank inglês EMBER.

Segundo o estudo, a fusão entre a eletrificação e a digitalização criou outra base de produtividade. O setor elétrico se consolidou como núcleo da economia digital. E nela a produção, o transporte, a comunicação e a indústria estão sendo reorganizados em torno de energia limpa e controle digital, fenômeno comparável à revolução da informática nos anos 1980, mas de alcance muito maior.

Tal leitura contrasta com a visão da IEA, a Agência Internacional de Energia, que ainda esboça a transição como um processo político dependente de consensos multilaterais lentos, sem grandes efeitos, exceto a conscientização global sobre a gravidade climática.

Já o EMBER sustenta que a transição é irreversível, impulsionada pela inovação, escala e competição. A queda de custos da geração solar e eólica e a expansão das redes digitais inteligentes tornam a mudança inevitável a despeito de tratados climáticos. Isso está em curso, com consequências profundas. E é oportunidade para nós.

Da cúpula do clima ao chip

A economia do elétron substitui a do petróleo como base do poder industrial. No novo regime, a vantagem não está em deter reservas de insumos fósseis, mas na capacidade de transformar energia limpa em produtividade tecnológica, quebrando os paradigmas conhecidos.

Isso começou no primeiro governo Trump, ao perceber a expansão do poderio industrial da China como ameaça existencial à segurança dos EUA, e se firmou na gestão Biden, com as leis bipartidárias de reindustrialização incentivada por facilidades regulatórias além de subsídios para atrair a produção de semicondutores, baterias, veículos elétricos e sistemas de energia limpa. Trump 2 se elegeu criticando tais iniciativas, mas não mudou a direção, as ampliou.

Hoje, como o estudo do EMBER expõe usando dados oficiais, a curva de aprendizado das tecnologias elétricas é exponencial, com cortes de custos de 20% a 30% a cada duplicação da capacidade instalada. Em contrapartida, o custo marginal das energias fósseis (petróleo e carvão) segue em alta. Seus preços são políticos e não absorvem os ganhos de escala e de eficiência do avanço tecnológico.

Nesse contexto, o modelo de integração entre chips, inteligência artificial e redes energéticas sinaliza que o verdadeiro valor da eletrificação está na convergência com o digital. O eixo produtivo americano já não é o petróleo do Texas nem o shale, mas a rede de eletricidade e de dados digitais que emerge do Vale do Silício.

Para evitar a armadilha verde

O impacto desse redesenho é global, até pelo movimento das COPs. Pressionada por metas de descarbonização e custos de energia, a Europa adota caminhos semelhantes aos dos EUA. A China acelera a verticalização da indústria de semicondutores e painéis solares. Índia e Coreia se posicionam como polos de manufatura elétrica.

E a América Latina? Apesar de possuir recursos naturais e energia limpa, hesita em definir uma estratégia industrial compatível com a escala da transformação. Essa discussão é incipiente entre nós.

Temos tudo o que o mundo demanda: 88% de eletricidade renovável, estabilidade elétrica, reservas de minerais críticos, biomassa, água, mercado de consumo de massa potencial, população sequiosa por novidades tecnológicas como o PIX. Mas o risco de transformar tais vantagens em armadilhas é real. O país pode se limitar a ser exportador de energia limpa e minérios, nova forma de dependência.

A “armadilha verde” repete o antigo padrão primário-exportador, e agora com a legitimidade ambiental. Mais eficiente seria usar a energia para a reindustrialização em bases elétricas e digitais.

Primeiro, a manufatura de eletrônicos de potência, inversores, conversores e semicondutores. Segundo, integrar as redes digitais e industriais em plataformas inteligentes, com IA e automação. E, por fim, mobilizar instrumentos financeiros e diplomáticos visando a formação de fundos com capital público-privado e a implantação de polos territoriais de produção tecnológica e energia limpa.

Essas zonas seriam como laboratórios da nova economia industrial, que se assenta em energia renovável, indústria inteligente e conectividade digital. O foco não seria exportar eletricidade, mas converter elétrons em empregos, inovação e riqueza tecnológica.

Política climática industrial

Podemos ter protagonismo neste fim de década de transformações de impacto disruptivo se entendermos que as ações climáticas serão mais eficientes não só com regulação, mas com produtividade e produção de eletricidade oriunda de inovação, como a fonte solar.

A verdadeira transição justa concilia ecologia e desenvolvimento, natureza e indústria, sustentabilidade e soberania. Isso exige um novo pacto entre Estado (como coordenador estratégico), empresas (como execução) e ciência (o sistema propulsor de inovações).

A COP com sua retórica moralizante e punitiva pertence a uma era de diagnósticos. A revolução movida por elétrons escancara a fase da execução, pondo em cena quem dominará o sistema energético do futuro.

O Brasil, se agir com visão e coordenação, pode saltar de potência ambiental para potência industrial da eletricidade e do digital.

A economia do futuro está migrando do barril de petróleo e do carvão para bits e elétrons. E, desta vez, temos as peças do jogo e o tabuleiro. A dúvida é se saberemos jogar o novo jogo.

Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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