Como o diabo gosta
Houve um tempo em que juiz só falava pelos autos, havia pudor em ostentar riqueza, especialmente as súbitas, parlamentar respeitava o eleitor ou ao menos fingia respeitá-lo e ofensas e agressões custavam o ostracismo social. Onde está esse Brasil? Ele existiu?
A sensação difusa é a de que estamos numa era de desordem moral e institucional, em que regras são barganhadas à luz do dia, gastos públicos explodem sem contrapartida de arrecadação ou de corte de outros gastos e os episódios de irresponsabilidade já não chocam. Só confirmam a degradação silente infiltrada no Estado nacional.
A deterioração não decorre de um único governo ou partido, é um projeto de décadas. As tais pautas-bomba e as despesas excluídas da lei orçamentária para maquilar o resultado das metas fiscais corroem os compromissos e anulam promessas de responsabilidade.
Multiplicam-se as exceções contábeis, como o economista Felipe Salto demonstra didaticamente, enquanto governante e ministros posam de guardiões do erário, com a omissão dos controladores.
A política social, tratada como instrumento eleitoreiro, virou um labirinto sem direção: Cadastro Único desatualizado, benefícios sem verificação de vínculo, programas sobrepostos etc. formam um sistema que gasta muito e resolve pouco. O diagnóstico do Tribunal de Contas da União é devastador: o Estado é pródigo em gastar e pobre em entregar. A infraestrutura e a produtividade se arrastam, enquanto 45% da população figuram em cadastros de assistência.
Não se emancipa ninguém sem método; cria-se dependência permanente.
Esse populismo fiscal não dialoga com a realidade de um país que precisa crescer, investir e elevar a produtividade. Ao contrário do que pregam discursos sentimentais, responsabilidade fiscal não é antônimo de justiça social — é a pré-condição para que exista.
Informalidade e estagnação
O desemprego está na mínima histórica, mas a informalidade segue em torno de 40% há uma década. O emprego gira sem avançar, se a renda sobe porque mais gente trabalha, não porque a produtividade cresceu. A economia se viciou no aditivo das transferências.
Enquanto isso, a economia formal carrega encargos sufocantes, um incentivo à proliferação de MEIs e PJs como rotas de fuga do ônus tributário, não como estratégia produtiva. Resultado: mantém-se um emprego socialmente precarizado e de baixa produtividade – suficiente para sustentar uma sensação de bem-estar imediato, mas incapaz de criar prosperidade duradoura.
Os paradoxos são multifacetados, como na geração de eletricidade, o insumo que alicerça a economia digital. Nossa oferta é crescente e, ainda assim, a conta de luz sobe mais que a inflação. O avanço desordenado da geração distribuída, a dependência de térmicas nas horas críticas e a perpetuação de subsídios implicam tarifas altas e um sistema permanentemente tensionado.
Temos potencial elétrico extraordinário, mas pagamos por ele como um país com carência energética – distorção típica de governos que não planejam nem conciliam os interesses nacionais e os privados.
Na segurança, outro colapso: a população, sobretudo na periferia, apoia operações policiais brutais movidas pelo desespero diante de facções que ocupam o vazio do Estado para extorqui-la e impor sua lei. A degradação institucional emerge com sua face mais perversa.
O mundo mudou. Nós paramos
A crise de integridade nas democracias se repete em toda parte. A “Anything Goes Era”, como definiu a revista inglesa The Economist, ou, sem firula, “Era do ‘Quero Levar Vantagem’”, descreve um mundo em que a erosão de normas, o vale-tudo e o personalismo corroem o prestígio das instituições. A fronteira entre influência legítima e captura privada do interesse maior se estreitou perigosamente.
Esse cenário adverso coincide com transformações profundas, que se tornaram inevitáveis. Segundo estudo da consultoria Bain, esse é o tempo das Grandes Transformações: “a globalização agora é pós-globalização. E a superabundância de capital? Acabou. Mão de obra abundante e urbanização? Não e não de novo”.
Em momentos assim, países que não fazem apostas explícitas ficam prisioneiros do passado. O Brasil, hoje, faz apostas no escuro.
Nossas escolhas — fiscais, sociais, energéticas, tecnológicas — são previsões mascaradas. A ausência de clareza estratégica é, na prática, uma aposta de alto risco na inércia. Países que prosperam fazem o oposto: mapeiam suas vantagens, testam as suas convicções, não receiam ousar, e corrigem o rumo enquanto avançam.
O país precisa reencontrar a sua bússola, começando pelo básico: reconstruir o Estado, elevar a produtividade, ordenar os programas sociais, reformar o gasto público, promover a segurança em bases profissionais, multiplicar o investimento ainda muito baixo para o vulto das novas demandas, e priorizá-lo para a geração de energia limpa, para as tecnologias de fronteira e a indústria avançada.
O que é preciso entender
No fim das contas, a pior armadilha é acreditar que decadência é destino, embora seja apenas o preço de não mudar quando o mundo já mudou. Mudar não é só reformar sem saber aonde chegar. Sabemos?
Tirando um punhado de abnegados, a maioria está alheia até mesmo à urgência das transformações. Cobra-se muito do Congresso como se os demais poderes da República, o Executivo e o Judiciário, fossem utopistas do novo tempo. Não são, ou não estariam batendo cabeça enquanto se acusam, se agridem e discorrem sobre platitudes.
Antes de tudo, a urgência que se impõe é de um plano para que não sejamos irrelevantes no teatro global. O país entrará em 2027 com quatro vantagens simultâneas raras no mundo: fartura energética, mineral e hídrica. Mas com programas de eficiência não realizados no setor público, baixa produtividade sistêmica, setor empresarial fragmentado e não engajado em missões nacionais e pressão social.
O fato é que a aparência de normalidade na economia disfarça nossa fraqueza tecnológica e chegou no limite com as tantas pautas-bomba vindas ora do Congresso, ora do governo, sempre por politicagens e não por necessidade.
Mas quem se importa em apurar se faz sentido a lei orçamentária de 2026 prever subvenções de R$ 32 bilhões para entidades com fins lucrativos? Uma fintech cobrar juros mensais de 16,9% ao mês (ao mês!), sem ter agências nem atendimento próprio, numa clara assimetria regulatória com a banca tradicional?
Precisamos de um plano de desenvolvimento para os próximos quatro anos, precisamos de gente que constrói e gosta de riscos, pôr eixo na governança da coisa pública. Mas já fará grande diferença tirar do pedestal o tanto de vigaristas masters que estão em toda parte.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
