O poder das urnas
Tal como no futebol há times que jogam com o regulamento debaixo do braço, em Brasília e Johannesburgo, que sediou a cúpula dos BRICS, os líderes políticos se moveram nesta semana com o olho no calendário de 2024, e cada parte vai adiantar o passo quanto mais pertos estiverem duas datas decisivas: 5 de novembro, das eleições gerais nos EUA, e um mês antes, em 6 de outubro, os pleitos municipais no Brasil.
Os resultados deverão definir os próximos anos para a paz global e o desenrolar dos acontecimentos no Brasil. Comecemos pelo exterior.
A reeleição de John Biden, com maioria na Câmara, que hoje está com os republicanos, e no Senado, onde a mantém, levará ao aprofundamento do programa de subvenções à indústria mais avançada, à diluição do poder dos financistas e ao aumento da tributação sobre os mais ricos.
Na política externa, a hegemonia será defendida com todos os meios, sem folga para o expansionismo russo e, eventualmente, o chinês.
A volta de Donald Trump seria o fator disruptivo na política, já que na economia o desbaste do neoliberalismo e o cerco à China começaram com ele. Mas Trump poupou Vladimir Putin, cujo antiamericanismo nada tem a ver com a velha União Soviética. Putin é próximo aos movimentos de extrema-direita no mundo e, como Xi Jinping, aposta na decadência das democracias liberais e do poderio econômico dos EUA e da Europa.
Num grande resumo, este foi o pano de fundo das pressões da China na África do Sul, parte do BRICS juntamente com Índia, Rússia e Brasil, para ampliar a composição do que nasceu em 2001 como título de estudo do então economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O’Neal, sobre países emergentes que a seu juízo seriam os mais promissores a médio prazo.
A tese de O’Neal ganhou forma em 2009, mas sem consequência prática, exceto pelo NDB, o “Banco dos BRICS”, presidido pelo sistema rotativo por Dilma Rousseff e, de fato, operado pela China e Índia. O objetivo mudou nessa cúpula, levando o BRICS a ganhar novos países e pender à China, com apoio animado da Rússia e reticente do Brasil e Índia.
Política à luz do momento
Sob sanções dos EUA por práticas comerciais consideradas abusivas e espionagem tecnológica, o governo chinês viu na ampliação do BRICS a oportunidade de diminuir sua dependência dos mercados do Ocidente, e foi o que se deu com a entrada de seis novos sócios (Argentina, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia). É para se blindar, e a outros hostis aos EUA e Europa, como Rússia e Irã, do risco de um governo americano mais determinado depois de 2024.
Política se faz conforme o momento. O momento chinês sobrepuja o de todos os demais do BRICS, pois enfrenta, além da resistência de uma maioria nos EUA contrária a franquear o país a quem age para derrubar a hegemonia americana no mundo, a primeira grande crise de indigestão de passivos decorrentes de sua meteórica ascensão iniciada em 1978.
Esse é o contexto do que no governo Clinton se pensava como G-2, de China e EUA entrelaçados. Um arranjo de “capitalismo de laços” entre as duas potências econômicas. A reemergência do nacionalismo chinês com Xi Jinping, especialmente a retomada de Taiwan, foi esfriando a relação. Trump virou a mesa ao impor tarifas sobre as exportações da China e rotular a Huawei como braço de espionagem militar. Veio Biden e as sanções sobre a China atingiram a tecnologia de semicondutores.
Caminha-se para um impasse contra o qual operam governos europeus e as grandes empresas dos EUA, cujas receitas totais são de 25% a 60% geradas na China, da Nvidia e Apple à GM e Intel. Mas, com a intensa polarização doméstica nos EUA, a confrontação da China é só o que une os republicanos aos democratas. O que fazer?
A realpolitik da Índia
Certamente, não precisa ser sábio para dizer que em “briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, assim como “anzol sem isca peixe não belisca”. Tendo a China como maior comprador de nossas commodities, de grãos e carne a minérios, e os EUA como provedor de capital e tecnologia, além de referência cultural difícil de eliminar, ao Brasil cautela é ouro.
Tome-se o governo hipernacionalista de Narendra Modi, da Índia, país de maior crescimento econômico depois da China nas últimas décadas e visto pelos chineses, historicamente, como ameaça existencial. Apesar da estratégia de não-alinhamento, lançada e liderada no mundo por Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia pós-colonial, Modi conseguiu de Biden uma parceria estratégica em tecnologia, armas e vigilância e dissuasão militar, ao aderir ao Quad, aliança com EUA, Japão e Austrália, formalmente para defender a democracia e promover prosperidade na região do Indo-Pacífico.
Índia se fortaleceu militarmente com esta ação, trouxe tecnologia de ultima geração para suas empresas, já que os acordos envolvem o setor privado indiano, ignorou o que China iria pensar disso, e continuou a comprar petróleo russo embargado para refinar e reexportar, impedindo Irã e Arábia Saudita de darem as cartas na OPEP. Ajudou a esfriar os preços dos combustiveis mundo afora, conforme propósito dos EUA.
O tema de comércio e transações financeiras sem dólar não faz parte da retórica de Modi, embora a Índia aceite renminbis e rublos. Não se cutuca onça com vara curta. A diplomacia indiana disputa espaço com a China e Rússia na África, graças à sua enorme diáspora, e é a causa de a China fingir concordar com o pleito do Brasil por lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Índia é o primeiro da fila, ao lado do Japão, vetados pela China, mais Alemanha, pela Rússia e… França.
O Narendra Modi brasileiro
O teatro de aparências nas relações externas, onde raramente o que se vê corresponde ao que de fato seja, tem semelhança com a política dos dias atuais em Brasília. O presidente da Câmara, Arthur Lira, faz como Modi. E como o indiano em relação aos EUA entrega o que promete.
A política federal tem se movido na expectativa de o presidente Lula ter votos na Câmara e no Senado para aprovar as decisões necessárias para o sucesso ao menos mediano de seu governo. Não dá para brincar.
Com apenas 130 deputados fiéis entre 513, o que o governo conseguiu aprovar este ano dependeu de partidos de centro direita – do centrão, tipo PP, PR e UB, representados por Lira, além de PSD, MDB e PSDB. A conta inclui até um naco do PL, de Bolsonaro, que tem 99 deputados.
Lula cedeu ministérios, embora mantendo com o PT os principais como Fazenda e Saúde, e se compromete a ceder mais dois, atendendo a Lira.
Medidas como arcabouço fiscal e reforma tributária do IVA vão passar graças a tal apoio. Outras sem aderência com a linha programática que Lira representa não passam ou serão drasticamente desbastadas. Ele é hoje visto como fator de equilíbrio político por parcelas crescentes do empresariado, incluindo os que sempre se opuseram a Bolsonaro e ao ultraliberalismo de fachada de Paulo Guedes. E vai assim até 2026?
Não. O desempenho do PT nas eleições municipais vai servir para dar aos aliados a avaliação sobre o sentimento do eleitor para 2026, e isso em meio à maioria conservadora como tendência e não como acidente conjuntural. A política realística praticada no mundo abre portas e dissuade encrenqueiros. A progressão da economia depende do mesmo cálculo. Ou o bolsonarismo sem Bolsonaro continuará por aí.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.