A lição das arábias
Não se tome a parte pelo todo, tanto pelos resultados de mais uma viagem de Lula ao exterior quanto pela economia fechar o ano muito melhor do que o mercado financeiro previa em janeiro. O que se vê, e se prevê, não é para ser avaliado pelo valor de face. Enquanto o investimento não ditar o ritmo do crescimento econômico, incluindo a sua consequência para o bem-estar, não dá para relaxar.
Começando pela economia: vai crescer em 2023 mais do que previam os economistas dos traders de papéis da dívida pública, que não se sabe bem o motivo são os mais, ou únicos, ouvidos pela imprensa. A expectativa é que o PIB cresça em torno de 2,7% sobre 2022, quando avançou 2,9%. Mas para 2024 o PIB deve desacelerar, passada a fase do laxismo fiscal legado pela campanha eleitoral de 2022 e sem que a distensão dos juros pelo Banco Central ainda se faça percebida.
A verdade raramente presente nos discursos oficiais e em análises dos “eruditos” da macroeconomia é que a economia estará bombando o dia em que a ênfase sobre a expansão da oferta (leia-se: ênfase do investimento) vier à frente do aumento da demanda. Isso poderá ser percebido pelo aumento da produção industrial e do investimento em máquinas, equipamentos (bens de capital) e na construção civil.
Na construção, estamos 50% abaixo da média do início dos anos de 2010. E a indústria, segundo o relatório de outubro do IBGE, o seu nível de produção está próximo ao patamar do início de 2009, nada menos que 14 anos atrás, e 18,1% abaixo do pico em maio de 2011. É “uma leitura clara de um setor que não mostra maior dinamismo nem maior vigor”, reflete o gerente da pesquisa do IBGE, André Macedo.
Ele atribui tal desempenho pífio à política monetária restritiva. A rigor, a falta de crédito farto e com juros decentes vis-à-vis a taxa de retorno das atividades lícitas e a renda disponível, ainda muito baixa, explica o país ter ficado para trás na corrida tanto econômica quanto tecnológica em relação ao resto do mundo. É muito mais isso que a carência de investimento público, cujo papel serve mais como motor de partida do que de combustível do crescimento.
A conexão dessa prioridade com a visita oficial de Lula à Arábia Saudita, antes da COP28 nos Emirados Árabes Unidos, está aí: no interesse dos sauditas em aportar dinheiro grosso no Brasil.
Deslumbrados com a OPEP
Os sauditas pilotam dois grandes fundos com trilhões de dólares de recursos, que estão sendo aplicados parte na construção de uma economia não dependente da riqueza do petróleo e parte em empresas e projetos em países promissores e com perspectiva de dar retornos seguros a longo prazo. Brasil é visto como um desses locais.
Não é de hoje esse interesse, permeando o agronegócio, minerais estratégicos e indústrias com pegada tecnológica em segmentos que vão da biomedicina à inteligência artificial. O ponto de partida é um aporte de US$ 10 bilhões, ou mais, com contrapartidas de outros investidores e firme disposição do governo brasileiro. Não avançou até agora pela morosidade da burocracia. É o que deverá mudar.
Tem tudo a ver com nossas prioridades, mas até agora passou quase despercebido. Mereceu mais destaque um vídeo do ministro Alexandre Silveira, de Minas e Energia, em que afirma a membros da OPEP que o governo deve confirmar convite para aderir ao cartel na condição de observador (categoria chamada de OPEP+, formada por 10 países, como Rússia e México, adicionais aos 13 membros plenos).
Para uma potência real, não potencial, em energia limpa, na ponta do WWS, de wind (eólica), water (hidrelétrica) e solar, não cabe o diversionismo deslumbrado da OPEP+, se até os produtores do Golfo buscam parceiros para diversificar suas fontes de renda e riscos.
Não pode também passar despercebido que essa é uma estratégia que não exclui as economias ricas, como EUA e União Europeia. O tal do Sul-Global, a frente antiocidental liderada pela China e Rússia, é mais uma construção retórica para os emergentes mais evoluídos (Índia, Indonésia, Turquia, Arábia) que uma adesão de peito aberto aos chineses.
Um programa transformador
Os fatos são difíceis de absorver quando há um caldo de cultura a turvar as formulações nacionais de governo. Mas sejam lá as visões que tiver não escapamos de estar numa senda em que as prioridades não podem diluir o investimento como necessidade vital – e suprida por fundos privados, dado a exaustão da carga tributária no país.
A economia encolheu nas últimas décadas, o que fica gritante na comparação com países como Índia, Indonésia e México, e não está exposta a esta realidade graças à exportação de commodities. Elas nos excluíram do drama centenário da insolvência em moeda forte, o mal raiz da Argentina, mas, ao contrário da manufatura e serviços, contribuem pouco à arrecadação tributária e previdenciária e para a geração de empregos, além de fomentar a concentração de renda.
Um programa transformador terá de ser puxado pela indústria, por sua vez dependente de tecnologia de ponta, de consolidação dentro dos mercados e de muitas empresas novas. E ter como ponto focal a incorporação da população ativa, 175 milhões, sendo 108,4 milhões na força de trabalho e 100,2 milhões ocupados.
A empregabilidade maciça é o jeito de diminuir sem trauma o gasto orçamentário (que os radicais pretendiam apenas erradicar).
Ah, mas estamos criando empregos, dirá o otimista. Sim, só que de baixa qualidade, além da multidão computada como empregador ou por conta própria (25,6 milhões, sendo 19 milhões sem CNPJ). Menos…
Déficit de inteligência
A esta altura deve estar claro ao governo que ter na arrecadação de impostos uma pauta praticamente única não trará crescimento, e nem apoio político. De um lado, afasta ou afastou o empresariado.
De outro, a aprovação do Congresso implica mais gasto com emendas em bases eleitorais para cevar o voto que em 2026 vai jogar contra Lula e o PT. O PT precisa ouvir mais o seu ex-líder José Dirceu.
A dicotomia entre a agenda verde e o petróleo também é ociosa. A exploração tem de ganhar ritmo, já que as previsões oficiais dizem que a partir de 2030 a produção global entrará num viés permanente de queda. Em contraponto, estamos bem-posicionados para brilharmos com soluções de baixo custo contra o aquecimento global, poluição do ar e insegurança energética.
Em suma, para não ser repetitivo: o nosso maior déficit é de inteligência estratégica, não o déficit fiscal.
Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.
